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Um conjunto de robots que desenham retratos, projeto do artista Patrick Tresset.

Quando trinquei a bolacha, o sabor era algo enfarinhado, com toques de ervas aromáticas, tomate e peperoncino. Mas o que estava a degustar não é o que habitualmente associamos à gastronomia italiana. Estava a experimentar bolachas feitas com uma farinha composta por grilos. Um projeto de sustentabilidade alimentar, que aposta nos insetos como ingrediente comestível. Vir a Itália e experimentar comer insetos não era inesperado, dado o local onde estava. Este era um das centenas de projetos que, entre os dias 18 e 20 de outubro, encheram a Fiera di Roma na edição de 2019 da Maker Faire Rome.

Uma edição que fez justiça à fama deste evento como o maior evento Maker europeu, e dos maiores a nível global. Três dias, centenas de projetos, milhares de visitantes. Os romanos levam a comunidade Maker muito a sério. Ah, e as bolachas feitas com grilos? Apreciei, apenas achei que o seu criador poderia intensificar o seu sabor.

Uma Faire à Escala Global

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Fãs de cultura geek que chegam ao nível de personalizar um Carocha. Este “maggiolino” fazia as delícias dos visitentes.

É-me muito difícil transmitir a escala do que é a Maker Faire Rome. Para os nossos padrões, o evento é gigante. A Faire ocupa sete dos dez pavilhões da Fiera di Roma, a uma curta viagem na linha de comboio entre a cidade eterna e o aeroporto de Fiumicino. Como descrever a escala? A sensação que tenho é que este espaço expositivo equivale, sensivelmente, a duas vezes e meia o espaço da lisboeta FIL. Não quero soar a saloio deslumbrado com o que se vê lá fora (nem faria sentido, por cá, haver uma estrutura com essas dimensões), mas sempre que por lá passava era impossível não sentir que a coisa era grande. Uma sensação acentuada pelo espaço onde estava o projeto que levei à Maker estar num dos pavilhões mais distantes da entrada, dedicado a universidades e projetos inovadores. Chegar lá, implicava uns bons minutos a andar.

Este sentimento de escala não é meramente arquitetónico. A Maker Faire Rome é levada muito a sério, e isso nota-se pela quantidade de projetos participantes. E, especialmente, na sua diversidade. Robótica, impressão 3D, economia circular, espaço, eletrónica, educação, ciência. As áreas são muitas, a Faire é um ponto de encontro das mais variadas áreas. E dos mais variados makers. 

Informalidade e Profissionalismo

Normalmente, associamos a cultura maker a um certo amadorismo. Entusiastas que se juntam em fablabs, criadores a fazer engenhocas nas suas garagens, projetos que talvez possam chegar a startups, ou escolas com projetos pedagógicos. É a base, importante, da cultura Maker, mas a Maker Faire Rome faz-nos olhar muito mais além. Para a organização, esta vertente da cultura maker é fundamental, e bem representado. Mas a componente económica não é descartada, e os projetos chegam de startups, ou empresas já estabelecidas, algumas de grandes dimensões.

Neste aspeto, a Maker Faire mostra-nos que a inovação tecnológica pode ter impacto económico real, entre o empreendedor a transformar a sua ideia num negócio à grande empresa que modifica os seus processos produtivos dando espaço a tecnologias recentes. E isto não se faz sem ciência, algo que a Faire não esquece, dando espaço a investigadores e universidades mostrarem o que fazem no domínio da investigação em novas tecnologias.

Aposta na Ciência, Tecnologia e Economia

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O cão-robot do IIT, capaz de puxar pequenos aviões.

Comunidade maker, economia e ciência. São as três grandes vertentes deste evento que, anualmente, atrai milhares de visitantes e projetos de todo o mundo. E antes de avançar com este mergulho na Faire 2019, tenho de salientar o aspeto do interesse do público. Habituado à atitude do público em geral por cá, que normalmente só causa enchentes em eventos mais mainstream, fiquei surpreendido pela adesão à Faire. A organização tenta preparar-nos, avisando-nos que só no primeiro dia são esperados vinte mil crianças das escolas da zona. Mas esse dia é até tranquilo, comparando com os restantes. A Faire enche, são milhares de visitantes que visitam os espaços, interagem, questionam, procuram saber mais sobre os projetos.

A Maker Faire não é espetáculo, é show and tell, e a curiosidade dos visitantes é palpável. Uma dica, caso um dia experimentem visitar ou participar nesta Faire. Nunca se deixem ficar até à hora de encerramento. Senão, espera-vos uma viagem de regresso a Roma em comboios apinhados. Não é uma experiência desagradável ao nível linha de Sintra ou hora de ponta no metro de Lisboa (até porque a rede de transportes romana está pensada para ser barata e eficaz, nunca se espera mais do que três minutos no metro ou 20 por um comboio), mas há formas mais agradáveis de regressar à cidade eterna.

Áreas Temáticas da Maker Faire Rome

A Maker Faire Rome divide os seus projetos em áreas temáticas, às quais corresponde um pavilhão específico. O 10, Ágora, é um ponto de encontro que, este ano, albergava uma conferência sobre robótica patrocinado pela Onrobot, um fabricante europeu de manipuladores compatíveis para robots industriais de diferentes marcas. Não está pensado para o grande público. Com o tema Research, o pavilhão 9 dava espaço a projetos de universidades e instituições superiores. O espaço fazedor puro encontrava-se no pavilhão 8, Make, que reunia projetos e empresas que desenvolvem produtos de eletrónica e fabricação digital.

O 7 estava dedicado à descoberta, entre espaço, tecnologia educativa e ciência, incluindo projetos tão díspares como investigação universitária em robótica, cosplayers, o espaço Makers for Space, a polícia científica italiana, projetos criativos (onde se incluía o projeto pedagógico TIC em 3D que tive o privilégio de lá levar). No pavilhão 6 estavam os makers cuja criatividade se aplica a campos inusitados, como arte, desporto ou património cultural. O 5 era dedicado às crianças, com robótica educativa e espaço para escolas de todo o mundo mostrarem os projetos que desenvolvem com os seus alunos. O pavilhão 3, Re-Think, cruzava a cultura maker com a bioeconomia, novas soluções ambientais, economia circular, e agricultura inovadora. Era o local a visitar para se provar as bolachas feitas com grilos.

Alguns Projetos Maker

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Um robot industrial treinado para usar movimentos tipo mão humana.

Que projetos podemos salientar? A escolha é muito difícil, diria que praticamente tudo o que está na Maker merece ser conhecido. Mas destaco estes por, por alguma razão, me terem surpreendido.

Robótica

qbRobotics: Não resisti. Tive de apertar a mão a este Baxter. O investigador responsável por este projeto da Universidade de Pisa sorriu, e disse-me que na primeira vez que chegou ao laboratório, fez o mesmo. Este projeto usa um robot industrial Baxter, uma mão mecânica e uma luva para melhorar a forma como usamos os robots. O seu objetivo é ensinar o robot a pegar em objetos com movimentos similares aos da mão humana. Para o treinar, um operador veste a luva e os seus gestos são captados pelos sistema de aprendizagem do Baxter.

Adero: Um projeto nascido na ETH Zurich, este robot autónomo está a ser desenvlvido para entregas ao domicílio no espaço urbano. 

Personal Makers: Fiquei cativado por estes robots com carenagem em corte laser, sob a qual se ocultam atuadores e controlador arduino. Quando perguntei ao seu criador o porquê do projeto, disse-me “se a Google me fizer um robot, é para vender coisas, e não para isso que os quero, sempre quis um pet robot. Por isso estou a construí-lo”. É este o espírito maker puro.

Projetos Educativos Maker

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E3bot, um robot feito de cartão.

Variobot: Kits pedagógicos de robótica há muitos (eu que o diga, como co-criador do Anprino), e na Faire havia bastantes. Este atraiu por ser pensado para ser não programável. Tudo se faz unicamente com eletrónica, é a mecânica da forma de montar os componentes que define as ações do robot. Uma curiosa proposta de robótica low cost vinda da Áustria.

E3Bot: E, já que falamos em kits educacionais, outro projeto que surpreendeu pela simplicidade. Robots feitos em cartão, juntando sustentabilidade à aprendizagem da programação e robótica.

Dream/r: Educar para a consciência ambiental torna-se mais divertido com este jogo de realidade virtual. Usando o telemóvel e os marcadores no expositor feito com corte laser,os jogadores têm de descobrir que materiais recicláveis podem ser usados para produzir objetos do nosso dia a dia.

Mission Control Lab: Esta startup de tecnologia educativa estava mesmo ao nosso lado na Faire. Conquistaram pela sua simpatia, e pela criatividade dos seus kits de baixo custo para aprendizagem de robótica e eletrónica. 

Folding Pets: Já os tinha conhecido na edição de 2018 da Maker Faire, e este ano estavam de regresso, com modelos novos. Estes designers propõem construções origami em plástico.

Impressão 3D e Sustentabilidade

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Impressão 3d na medicina.

UNA STAMPANTE 3D PER OGNI OSPEDALE: Quando falamos de impressão 3D na medicina, geralmente pensamos nos avanços da bioimpressão 3D. Mas há formas mais diretas de a usar em contexto hospitalar. Os criadores deste projeto trazem a Itália o conceito de usar dados de imagiologia médica para imprimir partes do corpo dos pacientes, e com isso dar aos médicos uma nova dimensão na forma como fazem diagnósticos ou planificam operações. Daqueles exemplos de impressão 3D de que muito se ouve falar, mas foi a primeira vez que me cruzei com exemplos práticos.

SeeForMe: Este é um dos muitos projetos na Maker Faire que estavam a explorar o campo da digitalização do património. O que distingue este de outros que fazem scan 3d de obras de arte e arquitetura é a sua posterior aplicação como sistema de audioguia com realidade aumentada.

Parque Open Source: com madeira, máquinas de corte laser e sistemas modulares o mobiliário urbano dos parques e jardins pode ser concebido pela comunidade, em vez de ser decidido por técnicos em gabinetes. É esse o objeto deste projeto, concebido por docentes e alunos da Universidade de Roma Trè.

Ciência Pura… e Gastronomia

INAF: O instituto nacional de astrofísica italiano mostrou na Maker Faire alguns dos seus projetos. Um deles despertou a atenção: e se os nossos ecrãs fossem capazes de mostrar imagens holográficas? É este um dos projetos deste instituto de investigação, que procura desenvolver tecnologias holográficas para realidade aumentada.

Crické: Não vos podia deixar a curiosidade insatisfeita. As bolachas feitas com grilos são um projeto da Crické, uma empresa britânica que está a inovar no campo da alimentação.

Algumas Imagens:

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Robot de entregas autónomo do ETH Zurich.
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Um conjunto de robots que desenham retratos, projeto do artista Patrick Tresset.
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Novas ideias de sustentabilidade. Usar aquários para sustentar cultura de manjericão.
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Novos kits de robótica educativa da mBot: o mTiny está pensado para crianças pré-alfabetizadas.
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Uma maker faire sem um robot InMoov não seria a mesma coisa.
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Realidade Aumentada para aprender sobre sustentabilidade.
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Origami em plástico.
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Kits Varikabi.
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Criatividade steampunk.
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Robot humanóide quase funcional da Personal Robotics.
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Outro dos projetos artísticos, um piano tocado por mecanismos controlados por inteligência artificial.
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Compreender a forma como nos deslocamos, através de robots concebidos para serem desiquilibrados.
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Um robot que desperta emoções.
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O HyQ Real.
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Impressão 3D para melhorar a sensibilidade dos grippers mecânicos.
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Precisão em braços robóticos.
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O cão-robot do IIT, capaz de puxar pequenos aviões.
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Um robot industrial treinado para usar movimentos tipo mão humana.
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Futiros displays holográficos em desenvolvimento.
Jardins open source, projeto da Univeristà degli Studi Roma Trè.
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Um dos destaques da Maker Faire Rome, este ano, foram os projetos artísiticos.
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Kit pedagógico sobre circuitos da Mission Control Lab.
Será um comentário sobre a indústria do turismo?

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.