Um estudo recente publicado na Revista JAMA Network Open na quarta-feira passada, veio juntar novas preocupações ao Programa Espacial da Humanidade. De facto, foram estudados 11 tripulantes da Estação Espacial Internacional (o laboratório Espacial que se encontra presentemente a 408 Km de altitude sobre o Planeta Terra), para se obter resultados alarmantes. O resultado do estudo é que ainda há perigos desconhecidos para a saúde dos humanos ao viajar no Espaço, que sem estarem resolvidos nos impedem de fazer viagens de longo curso (como a Marte), ou de permanência alargada (como na Lua).

Na pergunta “A” (e a mais importante) deste estudo, que se debate sobre a questão se “a exposição prolongada à ausência de peso, está associada à diminuição do fluxo venoso cerebral e ao aumento do risco de trombose venosa jugular”, a conclusão é a seguinte:

Dos 11 tripulantes da Estação Espacial Internacional 6 tripulantes demonstraram fluxo estagnado ou retrógrado na veia jugular interna no dia aproximado do voo 50, e um tripulante desenvolveu mesmo um trombo oclusivo da veia jugular interna durante o voo espacial.

Significa isto que a falta de peso (provocada pela ausência de gravidade) está efectivamente associada  à estagnação do fluxo sanguíneo e consequente inversão do transporte / fluxo de sangue (nomeadamente afectando veia jugular interna, ou a esquerda, que é responsável por levar sangue ao cérebro, à cara e ao pescoço), e que por sua vez pode levar a uma trombose em astronautas saudáveis.

Também Andrew Feinberg, professor de Medicina da Universidade Johns Hopkins comentou este assunto com a cadeia de televisão NBC, explicando que “se você tiver um coágulo na veia jugular interna, ele poderá viajar para os pulmões e causar embolia pulmonar”.

As medições do fluxo de Dopler foram adquiridas 50 dias e 150 dias após o início do voo, e os dados foram analisados em Junho de 2019 no Centro Espacial Johnson da NASA.

Contudo, em microgravidade o coração adapta-se bem…

A astronauta Kate Rubins estudando as células cardíacas a bordo da International Space Station. Créditos: NASA

A astronauta da NASA Kate Rubins estudou células cardíacas na Estação Espacial Internacional. Uma vez que a astronauta se formou em Stanford, juntou-se a um grupo de pesquisa da Escola de Medicina desta Universidade, estudo esse liderado por Joseph C. Wu, usando células-tronco pluripotentes com o objectivo de estudar os efeitos do voo espacial na função desempenhada pelo coração humano.

O voo espacial afecta o corpo humano de várias maneiras, uma vez que este não está preparado para a ausência de gravidade, e isso provoca alterações fisiológicas na função cardíaca, como frequência cardíaca reduzida, pressão arterial reduzida e aumento do fluxo cardíaco.

Nesta experiência em que foram usadas células musculares do coração humano derivadas de células-tronco, os investigadores confirmaram que após 5 semanas e meia a bordo de uma cápsula de carga SpaceX, que as células mantiveram uma estrutura normal, embora tenham alterado temporariamente o seu padrão de batimento e padrões de reciclagem de cálcio, para se poderem adaptar ao ambiente de microgravidade do Espaço, regressando à Terra praticamente normais.

Causas ainda desconhecidas interferem nos intestinos

Uma nova ferramenta desenvolvida por investigadores da Northwestern University mostra que os voos espaciais alteram consistentemente a diversidade de bactérias nos intestinos dos astronautas (assunto essa, cuja importância já falámos aqui).

Essa ferramenta, que se chama “Teste de Similaridade para Padrões de Abundância de Microbiomas Accordantes e Reprodutíveis” (STARMAPS), foi utilizada para analisar dados de várias experiências, incluindo amostras recolhidas de ratos enviados para a Estação Espacial Internacional, a propósito do Twins Study da NASA (que comparou as mudanças fisiológicas do astronauta Scott Kelly com seu irmão gémeo da Terra, Mark, que também é astronauta), bem como estudos baseados na Terra sobre os efeitos da radiação no intestino.

Assim, os resultados do estudo indicaram que nos ratos (a missão de “roedores” da NASA começou em 2014), as mudanças na diversidade do microbioma (ou flora intestinal), sofreram mudanças semelhantes às experimentadas pelo astronauta Scott Kelly durante seus 11 meses no espaço.

Desta forma e de acordo com o comunicado da universidade de Northwestern localizada em Illinois, e que conduziu este estudo, “a radiação definitivamente afeta o microbioma intestinal”, afirmou Martha Vitaterna, a autora do estudo, embora “esses efeitos não se parecem com o que vimos (anteriormente) nos voos espaciais.”

Embora este relatório tenha mostrado que o voo espacial causa mudanças significativas na diversidade de bactérias no microbioma intestinal, a causa exata das mudanças não foi totalmente clara…

“Se vamos enviar humanos para Marte ou em longas missões para a Lua, é essencial entender os efeitos que a exposição a longo prazo do ambiente espacial tem sobre nós, e sobre os trilhões de bactérias que viajam connosco”, explicou Fred Turek, co-autor do estudo.

Os perigos são muitos, mas há quem queira construir um hotel no Espaço… Em 2025!

Se estes são os perigos que envolvem as viagens no Espaço, muitos visionários não têm esperado para desenvolver projectos que permitam um dia iniciar o turismo espacial. Entre eles inclui-se os projectos da SpaceX de Elon Musk, da Virgin Galactic de Sir Richard Branson, da Blue Origin de Jeff Bezos e até mesmo da Bigelow AeroSpace.

Mas não só! A Estação Espacial Von Braun (hotel espacial com gravidade artificial), é uma ambição da Gateway Foundation, e que foi baseada nos conceitos desenvolvidos pelo cientista nazi Wernher von Braun, que foi naturalizado nos Estados Unidos na sequência da “Operação Paperclip”, e que foi o pai do Programa Espacial dos EUA. A este projecto está naturalmente associado um SpacePort, para desembarcar os turistas espaciais, e cujo conceito está explicado no vídeo que se segue:

A ideia é usar robots e drones para montar este hotel em órbita, para que possa ser utilizado por cerca de 100 pessoas por semana. O designer do projeto, Tim Alatorre explicou numa entrevista à Dezeen que “eventualmente, ir para o Espaço será apenas outra opção que as pessoas escolherão para suas férias, como fazer um cruzeiro ou ir para à Disney World”, referindo que na sua opinião, inicialmente a viagem espacial ficará no domínio dos super-ricos, mas que em breve estará disponível para pessoas comuns.

A Estação Espacial von Braun utilizará a tecnologia existente na Estação Espacial Internacional, mas vai destacar-se desta no facto de ter gravidade artificial, permitindo que a estadia a longo prazo seja muito mais gerenciável e que não afecte a saúde dos tripulantes. Este conceito está de acordo com a Teoria da Relatividade de Einstein, que considera que gravidade e aceleração (neste caso, contra as paredes da roda giratória), não são conceitos diferentes, mas sim o mesmo conceito.

Esta estação será construída numa roda gigante e giratória com 190 metros de diâmetro, que vai rodar para gerar uma força gravitacional (semelhante à tração da lua). Terá 24 módulos individuais com instalações para dormir e de apoio, que estarão espalhados ao redor da roda em três decks, oferecendo acomodações para cerca de 400 pessoas no total.

Alatorre compara este projecto do “hotel espacial” a um navio de cruzeiro, apontando ainda que o projecto terá muitas das coisas semelhantes ao que vemos nos navios de cruzeiro: “restaurantes, bares, shows musicais, exibições de filmes e seminários educacionais”. Só que é baseado no Espaço!

Sabe-se apenas que a Gateway Foundation vai utilizar o GSAL, equipamento especial de construção espacial desenvolvido pela Orbital Assembly, e cujo conceito está explicado no próximo vídeo:

Acabamos com uma visão realista do fabuloso Scott Manley, especialista em mecânica orbital e “rocket science”, bom e também por um vício chamado Kerbal Space Program, que considera que a ideia da Gateway é fazível, mas não num cronograma tão agressivo…

A ideia é boa e será possível, mas segundo Scott Manley, ainda faltam limar algumas arestas primeiro…

 

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