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Para esta semana, recordamos cromos da Ficção Científica, observamos a ligação entre literatura e tecnologia, ou refletimos sobre a impossibilidade de FC portuguesa. Descobrimos a história dos videojogos portugueses, lasers enquanto armas de protesto e um novo robot educativo. Olhamos para a Acqua Alta, comportamentos reprováveis de Gauguin e o porquê dos futuristas geralmente estarem sempre errados. Capturas, as leituras semanais que procuram um traçar da forma do futuro.

Mundos da Ficção Científica

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1958 space cards from Topps.: Clássicas coleções de cromos.

Ménageries of an unstable Canon: Some Notes on Portuguese SF Short-Story Anthologies Compiled by Portuguese Editors: Se tiverem sorte nos alfarrabistas, poderão encontrar algumas destas antologias de FC clássica editadas em Portugal. Se hoje por cá a edição de Ficção Científica é escassa, tempos houve em que se editava, e lia, muita literatura deste género.

“The Expanse” Season 4: New Worlds, New Dangers Beyond the Ring Gate [OFFICIAL TRAILER]: Confesso que a nova temporada da série Expanse parte de um livro que foi dos que menos gostei. Mas…é Expanse! Das melhores séries literárias de ficção científica atuais, e também das melhores séries do género em televisão. Sim, melhor que The Orville ou Star Trek Discovery. Resta a paciência de fã, aguentar até dia 13 de Dezembro para regressar a este fabuloso mundo ficcional.

70sscifiart: Retro sci-fi landscapes, part two. Here’s a past…: Visões de futuros que ainda estão por construir.

Modern literature and technology: O texto é um belíssimo ensaio curto sobre a forma como a literatura foi modificada e reagiu à influência dos meios tecnológicos. Do surgir do conto como forma literária em reação à massificação da imprensa no final do século XIX às experiências narrativas com textos cortados dos anos 60 (reação à sociedade do espectáculo e à fragmentação dos media audiovisuais então incipientes) e ao hipertexto dos anos 90 (hello internet, e sim, leram bem, anos 90). Ou a forma como soube antever potenciais e efeitos das tecnologias. Aqui, Drácula de Bram Stoker é dos mais sublimes exemplos. Todos recordam o livro pelo vampiro gótico, poucos observam a forma como foi escrito. A história não é narrada, é uma sucessão de documentos – cartas, telegramas, excertos de diários, transcrições de registos fonográficos, fragmentos que convergem numa narrativa linear. Desde a minha primeira leitura desse romance que esse lado insuspeitamente experimental me seduziu, mais do que a figura trágica do vampiro. Mas para além da relação entre literatura e tecnologia, vale a pena ler o artigo só pelos primeiros parágrafos, que desmontam de forma concisa e sublime os medos que manifestamos perante o efeito de novas tecnologias: “Every technological breakthrough tends to be accompanied by anxious announcements of its catastrophic effect on literature. TV or tablet computers or smart phones threaten the book’s cultural authority, shatter the attention or destroy reading. (…) It is true that new communication technologies often produce new frameworks that adjust the ways in which literature appears: the page, the screen, the website, the file window. The innovation of the printed book itself is a good example, a technology considered dangerous by many elites when it first appeared for its ease of reproduction and dissemination”. 

wtxch: Suehiro Maruo: E estarão vós, leitores, preparados para a estética de Maruo? Esta é das suas obras mais suaves.

FC portuguesa? Existe?: Sim, mas… por muito que o Candeias e a Cristina discutam, levantando pontos válidos e interessantes, há alguns fatores estruturais externos ao género que impedem o seu desenvolvimento. Somos um país desinteressado na ciência e tecnologia, ou pelo menos com um nível de discussão pública sobre estes temas que vá além do deslumbre com gadgets ou novidades (s é por isto que o Bit2geek é um projeto muito importante, porque obriga a elevar o discurso sobre estes temas), e raramente olha para os impactos profundos que têm na sociedade e individualidade; a FC enquanto género é mal vista, o estigma cultural parece inexcisável, ao contrário do policial, outro género visto como menor mas aceite pela academia e intelectuais (há exceções a esta visão, mas ainda não as suficientes para ultrapassar o estigma); Apesar da evolução positiva na aquisição de hábitos de leitura pela população em geral (a Rede de Bibliotecas Escolares tem feito aqui um enorme trabalho de anos, invisível para quem não esteja nas escolas), a leitura não é um meio primordial, e os nichos podem não ser suficientes para permitir um mercado – algo que se agudiza, num ciclo de retroalimentação, quando os potenciais leitores lêem fluentemente noutras línguas e já leram e compraram aqueles livros que gostariam de ver editados em português. Recordo há uns anos ter falado com uma professora dinamarquesa, também geek (introduziu-me ao conceito de fantasy schools, escolas onde o role-play é central no desenvolvimento do currículo, e sim, isso implica escolas temáticas, dos potterheads aos vikings), e ter ficado surpreendido quando me contou que lá, era raro as editoras traduzirem autores. Simplesmente, disse-me, não havia mercado. Como lêem fluentemente em inglês, compram a edição inglesa ou americana. As editoras dinamarquesas editam os autores dinamarqueses. O que num país com arreigados hábitos de leitura não é problemático. Eu ainda falaria do preço dos livros.

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*The manuscript of the first page in the novel “Crash,” by J G…: Não é dos meus livros favoritos de Ballard (oscilo entre o Highrise, Hello America ou Atrocity Exhibition, esse tour de force de literatura experimental), mas o fetishismo automobilizado de Crash é marcante.

Superhero or Supervillain? Technology’s Role Changes Comic Books: A imagem dos artistas a trabalhar sobre estiradores está cada vez mais no passado. O impacto do digital na banda desenhada faz-se sentir nos próprios meios em que é produzida, com o uso de tablets e ferramentas de desenho digital e edição de imagem, sem que muitas vezes o leitor se aperceba disso.

Tecnologia

The Lasers of Discontent: Lasers como armas de protesto, e contramedida face às tecnologias de vigilância.

In 2029, the Internet Will Make Us Act Like Medieval Peasants: De facto, as plataformas têm uma certa tendência a trancar-nos como senhores feudais. Mas a parágrafos tantos, o artigo aponta para uma versão contemporânea da frase clássica de Clarke sobre tecnologias avançadas serem indistinguíveis de magia: “Thanks to ubiquitous smartphones and cellular data, the internet has developed into a kind of supernatural layer set atop everyday life, an easily accessible realm of fearsome power, feverish visions, and apocalyptic spiritual battle”. De certa forma, é assim que interagimos com tecnologias que não compreendemos.

Bundling and Unbundling: Será que as ondas disruptivas da tech economy são assim tão positivas e úteis? Grande parte funciona pegando em modelos tradicionais de negócio, retiram-lhes funcionalidades, passam parte do trabalho e encargos para os clientes ou trabalhadores, e ainda posicionam serviços simplificados como um luxo.

Ubiquity6’s Display.land is part 3D scanner, part social network: Já experimentei, e embora não tenha tido resultados excelentes, torna muito acessível a fotogrametria em dispositivos móveis.

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The Flight of Apollo 12: Photos From 50 Years Ago: E, à Apollo 11, seguiu-se a 12. Fotos da missão, na The Atlantic.

Laser (MIA): Se quiserem experimentar um dos primeiros jogos de computador desenvolvidos em Portugal, podem vir aqui descarregar. Precisam de um emulador de ZX Spectrum. Cortesia do blog Planeta Sinclair, que se dedica à preservação dos antigos jogos para este computador clássico.

mTiny robot review: Screen-free coding for kids: Cruzei-me com esta adição da mBot ao campo dos robots para aprender programação na Maker Faire Rome, um de dois projetos que lá estavam a mostrar com novos robots para educação. Achei-o interessante, curiosa a forma como tangibilizaram o interface de programação. Suspeito que por cá não ganhe adeptos, por não ser produto Clementoni (há uma ligação muito próxima entre esta marca de brinquedos e trabalhos muito interessantes de introdução de robótica a públicos pré-alfabetizados, talvez por falta de disponibilidade de equipamentos de outras marcas no mercado, muitas vezes este tipo de projetos é limitado pela disponibilidade de equipamentos off the shelf) (fun fact: a Clementoni tinha um stand na Maker Faire Rome, mas não na área de Educação, estavam numa zona dedicada à inteligência artificial. Confesso que não consigo ver a ligação entre os brinquedos da empresa e IA, mas enfim) .

Uma Breve História dos Videojogos Portugueses: O início: Se forem pacientes, ainda poderão encontrar nalgumas livrarias o excelente História dos Videojogos em Portugal de Nelson Zagalo, que traçou a evolução dos jogos de computador enquanto indústria desde as primeiras experiências nos anos 80 aos dias de hoje, em que se tornou uma indústria. Se não, este video do Cineblog é uma excelente introdução ao tema. E há que adorar a forma como termina, com o lendário jogo erótico português que nunca ninguém soube quem foi o criador.

Security robots are mobile surveillance devices, not human replacements: E é por isso que são vendidos, uma vez que são ineficazes em reais problemas de segurança. Mas não é uma questão de vídeo vigilância, é vigilância de radiofrequência – capturar dados de dispositivos móveis e traçar perfis a partir deles. Algo de muito valioso para quem gere espaços comerciais.

How the Dumb Design of a WWII Plane Led to the Macintosh: A origem do cuidado que hoje temos no design de interfaces de interação humana nasceu com acidentes aéreos provocados por mau design de elementos do cockpit, que provocavam confusão nos momentos mais cruciais.

Forma da Modernidade

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Venice Underwater: The Highest Tide in 50 Years: Imagens do fenómeno Acqua Alta, que inundou Veneza. Algo que, com os efeitos já irreversíveis do aquecimento global, se vai tornar o normal e não o excecional.

Your Favorite Futurist Is Wrong: Sim, normalmente estão. Os futuristas não são oráculos, raramente predizem realmente o que o futuro traz (e se o fazem, é por acidente). O que não quer dizer que devam ser descartados. As suas extrapolações ajudam-nos a compreender as tendências que moldam o tempo presente.

The Dismal Art: Economics Seems To Have Detached From Reality. So Why Does Anyone Listen?: A economia, enquanto disciplina, torneia e determina as decisões políticas económicas que afetam a vida de todos. No entanto, a relação entre a ciência económica e o que realmente se passa na economia parece ser cada vez mais distante. Como, por exemplo, na visão monetarista clássica e aquilo que os bancos realmente fazem para gerar dinheiro.

The Afghan DJs hired and abandoned by the US military: Uma história tocante, sobre afegãos que ousaram levantar a cabeça contra os talibans, e que agora estão ameaçados por causa da forma descuidada como os americanos se retiraram do Afeganistão.

Is It Time Gauguin Got Canceled?: Não há aqui grandes surpresas. Qualquer conhecedor de história de arte sabe que Gauguin foi viver a vida simples no pacífico sul, essencialmente perseguindo liberdades sexuais. O que hoje se chama de turismo sexual, com menores. Diga-se que visões sexualizantes predatórias sobre culturas vistas como inferiores à europeia, em que o exotismo apimenta a objetificação feminina, é muito transversal ao mundo da arte em várias épocas. Pensemos no orientalismo, talvez o caso mais óbvio de visões sexualizantes e colonialismo. De facto, o comportamento de Gauguin é hoje considerado criminoso, e sempre foi eticamente reprovável. O problema é que é uma figura de charneira na história da arte. Deveremos esquecer as suas obras? Pessoalmente penso que não, mas também não deveremos deixar de sublinhar que as suas ações são indesculpáveis. No entanto, este tipo de discussões tem tendência para cair nos extremos.

Turn down for what? Why you turn down the radio when you’re trying to park your car: Intrigante. Porque é que reduzimos distrações em momentos de foco intenso? Não é para aumentar a concentração, mas sim uma estratégia de diminuição de carga cognitiva.

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A radiação e a humanidade: A história de uma relação complicada e de um futuro promissor

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.