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Detalhe de Cadavre Exquis robótico sobre reprodução de pintura de Andy Warhol.

Por estes dias, a galeria do ISPA mostra-nos um tipo diferente de compreender e fazer, arte. De 8 de novembro a 13 de janeiro, este espaço alberga a exposição O Robot Surrealista. Nela, podemos descobrir um pouco do longo trabalho de vanguarda do artista português Leonel Moura, no cruzamento de tecnologias de robótica e inteligência artificial com a tradição artística.

Robots Criadores?

Robots pintores ArtSbot e Redbot.

Poderão os robots criar arte? Ou, colocando a questão de forma mais abrangente, serão as tecnologias de computação e robótica com autonomia cada vez mais progressiva que estamos a desenvolver, e que muitos temem que suplantem o humano, capazes de entrar naquela que consideramos algo como mais intrinsecamente humano, a criação de arte? Esta é uma das grandes questões levantadas pelo trabalho de Leonel Moura através destes projetos. 

Não é o único a fazê-lo, olhando para o contexto global da investigação artístical. Desde os anos 60 que os algoristas experimentam com a produção artística usando algoritmos. Recentemente, o potencial da Inteligência Artificial na geração de imagens tem sido muito explorado, especialmente com o uso de redes neurais GAN. O uso de robótica na criação artística também é muito explorado. Um de muitos exemplos.é o trabalho do artista canadiano Sougwen Chung na simbiose entre robots e humanos na geração de pintura.

E, num toque mais vernacular, abundam por sites como o Thingiverse ou Instructables inúmeros projetos de impressão 3D para construção de robots desenhadores. Criar máquinas de pintura baseadas em arduino (essencialmente, variações de CNC com capacidades de reprodução de desenhos ou pinturas) é um dos desafios clássicos a que a comunidade maker se atira. Neste aspeto, está tão normalizado que alguns dos mais populares robots educativos têm opções para criação de desenho. 

Arte Artificial?

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Detalhe de pintura do robot RAP.

Estas experiências usam robots e programação como meio de desenho e pintura, mas não tentam responder à questão mais profunda: qual é o significado da arte numa era em que meios artificiais parecem ser capazes de nos surpreender com criações que desmoronam a fronteira entre o humano o artificial?

Não é uma área de investigação artística fácil. Requer cruzar conhecimento técnico com intuição artística, trabalhando em equipa com programadores e criadores de robots. Tenho a sensação que, por cá, não é muito bem vista, porque desafia alguns dos pressupostos conservadores do meio artístico, especialmente no papel do artista e na produção de obras pictóricas, que aqui saem do controle humano. 

É também atreita a falsas explorações. Isso tornou-se notório recentemente, com a explosão de popularidade da chamada arte criada por Inteligência Artificial. Algo que em muitos casos não passava da aplicação direta de algoritmos de transferência de estilos com resultados de encher o olho, mas vazios de conteúdo. É relativamente trivial criar em Processing um algoritmo de geração de gráficos abstratos. Mas a pergunta a que Leonel Moura e outros artistas que trabalham neste campo tenta responder requer abordagens muito mais profundas, que não são mera transposição de algoritmos ou programação simples. Requer criar meios robóticos e algoritmos que diluam a fronteira entre comportamentos automáticos e inteligentes, capazes de mais do que o mero replicar de uma trajetória pré-programada.

Pequena Retrospetiva de um Trabalho de Vanguarda

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O criador e a sua criação?

A exposição O Robot Surrealista no ISPA peca por saber a pouco. Especialmente sendo um tema fascinante tanto para apreciadores de arte de vanguarda e conhecedores dos limites em expansão constante da robótica. Apesar de pequena, a seleção de trabalhos é uma experiência visual, e especialmente conceptual, poderosa. Nela, podemos ver a evolução das experiências de Moura na conceção de robots pintores, dotados que algoritmos que os tornam capazes de decidir por si trajetórias ou aplicação de cores. São máquinas que dissolvem a fronteira entre artista e meio de expressão, porque a sua programação lhes confere graus de autonomia progressivos.

O que podemos descobrir ao visitar esta pequena exposição? De 2003, chegam-nos os ArtSbot (art swarm robots), robots pintores que reagem ao ambiente, cor e outros robots, bem como algumas pinturas que produziram. Em exposição também se encontra um robot Redbot, capaz de usar mais do que uma caneta, e algumas produções. Bem como um ISU de 2009, capaz de escrever e desenhar. Não havia nenhum robot BeBot em exposição, mas podemos ver algumas das suas produções.

Robot Surrealista nas Fronteiras do Artificial

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Desenho robótico sobre reprodução de pintura.

Talvez as obras mais tocantes sejam as criadas pelos RAP, Robotic Action Painter. Este robot faz parte do acervo do Museu de História Natural de Nova Iorque. A tela branca é rasgada por traços, e é impossível não refletir sobre o que levou o robot a fazer aquele traço específico naquele local, emergindo com as várias passagens um padrão complexo abstrato. Mas suspeito que os visitantes, pelo menos aqueles menos habituados a pensar sobre computação e robótica, sejam imediatamente atraídos pelas obras que mais enchem os olhos. Reproduções de obras de arte da tradição clássica e moderna, entre DaVinci, Warhol ou Van Gogh, sobre as quais robots desenham padrões abstratos, reagindo com os seus algoritmos às variações da obra base. 

Vídeo generativo por algoritmo.

A visita completa-se com um filme. Nele, as cores psicadélicas traem a origem artificial das imagens que vemos. Foram criadas pela combinação de diferentes imagens em tempo real por um algoritmo que o artista denomina de Chroma.

Podemos visitar esta exposição sob vários prismas. Da exploração da robótica enquanto meio de expressão criativa ao questionar do potencial artístico do artificial. De qualquer forma, é uma experiência que convida à reflexão sobre tecnologia e humanismo, e uma raridade. Fora algumas iniciativas do MAAT, exposições que se dediquem exclusivamente à arte digital são raras por cá.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.