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Para esta semana, destacamos as impossibilidades da Ficção Científica portuguesa, e a identidade do escriba sumério que compilou versões do Épico de Gilgamesh. Observamos porque é que máquinas de calcular ainda são um negócio viável na era das apps e smartphones poderosos, e os mitos sobre os telemóveis serem um perigo para os adolescentes. Ainda se olha para o Mosteiro da Batalha e para histórias curiosas da Guerra Fria. Estas e outras leituras, coligidas nas Capturas, que procuram selecionar os artigos mais intrigantes da semana. Sempre com um olhar que vai de agora até ao futuro.

Pela Ficção Cientifica

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Robert McCall’s “The Space Mural – A Cosmic View”: É preciso explicar?

Best science fiction and fantasy books of 2019: Todos estes livros não passaram pelo meu radar. Isso é inqualificável. Está na hora de resoluções de ano novo, e claramente a minha tem de ser voltar a ler mais ficção científica. Nos últimos tempos tenho privilegiado a não ficção, e a banda desenhada (até porque, por cá, estamos a viver um excelente momento neste género, com uma oferta crescente de vários géneros – com comics, manga e fumetti em destaque, e muita produção de autores portugueses, especialmente novos criadores e projetos).

It’s time for the long-awaited fifth installment in my…: Os céus estão cheios de astronautas mortos, restando os seus ossos dentro dos fatos espaciais.

Leiturtugas da semana #43: Foi há praticamente um ano que, num meet inesperado de praticamente metade da blogoesfera de crítica literária dedicada FC em português (ou seja, três bloggers), o Jorge Candeias lançou esta ideia, para fomentar a leitura crítica de FC portuguesa. O primeiro ano está a chegar ao fim, e a maior parte dos participantes cumpriu o objetivo de leituras em português. Deu também um ponto de encontro e descoberta de projetos de blogs portugueses.

STAR WARS art by Ralph McQuarrie: A visão clássica da Guerra nas Estrelas original.

FC portuguesa? Mas para quê?: É possível tal coisa como Ficção científica portuguesa? E qual a sua relevância? São estas as questões que Jorge Candeias coloca nesta sua exploração do reduzido nicho literário que é a FC portuguesa.

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Syd Mead: Concept art do filme Blade Runner? ’nuff said!

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Concept art by Milo Manara for an aborted remake of the 1968 sci-fi movie, BARBARELLA: Milo Manara a conceber o estilo visual de um remake do clássico Barbarella? Vai para a lista de filmes que nunca foram feitos, mas deixam os cinéfilos a sonhar.

Scribes Who Actually Wrote Down the Epic of Gilgamesh?: A história deste poema épico, obra maior de uma civilização perdida. Fascinante pela obra literária em si, por ao lê-la, se encontrar o substrato narrativo dos mitos bíblicos (o mais notório é o do Dilúvio), mas especialmente fascinante pelo sentimento de perda. Nunca saberemos a real extensão do poema, ou a sua versão mais canónica. E até os arqueológos se terem interessado pelas ruínas do antigo crescente fértil, esta obra maior da literatura mundial não passava de riscos incompreensíveis em tabuinhas de barro. Durante milénios, esta narrativa esteve perdida, apesar de ter influenciado parte dos mitos que formam o substrato cultural global. Curiosamente, foram descobertos indícios que um escriba compôs uma versão estruturada de um poema que na sua época, conheceu inúmeras versões (até porque servia para ensinar escribas a escrever). Sin-leqi-unninn não nos soa tão familiar como Homero, mas editou a primeira versão aparentemente completa do poema.

Chris Moore: Muito interessante.

“Charlie’s Angels” Go “Love Boat:” the Greatest Turkey to Ever Set Sail: A colisão de mediocridade aqui é estrondosa. Um crossover de dois clássicos da cultura popular, que quando os revemos percebemos até que ponto tinham argumentos patetas, maus atores e um sexismo que hoje seria inaceitável. Isto é foleiro ao cubo.

Até na Tecnologia

How to fight lies, tricks,and chaos online: Como perceber se o conteúdo que vemos online é verdadeiro ou falso? Estas pistas de literacia digital ajudam. São técnicas para afinar o que Howard Rheingold apelidou há décadas atrás de bullshit filters.
Monopolios invisibles: así es como Texas Instruments sigue vendiendo calculadoras gráficas obsoletas a precio de oro: Nunca se perguntaram porque é que na era em que os smartphones mais básicos têm um enorme poder computacional, um modelo específico de calculadoras ainda se vende como pão quente? A resposta está nos mercados cativos. À volta das calculadoras gráficas da Texas Instruments construiu-se parte dos programas escolares de matemática, especialmente ao nível do secundário, tornando a compra deste tipo de máquinas essencial. Claro, há alternativas em apps para telemóveis, mas não só estes são desencorajados em sala de aula (a esmagadora maioria dos professores até gostaria de proibir o seu uso tout court), como quem se atrever a não usar calculadoras esbarra noutra barreira, a dos exames. Parte das rigorosas normas de provas e exames nacionais versa sobre a listagem de modelos de máquina de calcular de uso autorizado em exame. Aluno que não trouxer um desses modelos não é impedido de fazer exame, mas a sua máquina não conforme a norma é de uso proibido. Com isto, algumas empresas conseguem manter um lucrativo negócio a vender tecnologia obsoleta a preço inflacionado, usando o rigor dos exames e a estagnação de metodologias de ensino para manter mercados cativos. E porque é que ninguém repara nisto? Normalmente, porque se aceita estas imposições como um processo normal na educação, que é transiente para a maior parte das pessoas. Só quem trabalha neste mundo é que se apercebe do perpetuar destas situações. Aliás, o mundo da educação é propício a este tipo de monopólios discretos. Ainda hoje temos de viver com as consequências do currículo Microsoft na disciplina de TIC que, e isto não é exagero, foi criado com base na gama de produtos da empresa e serviu de base ao ensino de milhares de crianças em Portugal. Isso, felizmente, mudou.

Archivists Are Trying to Make Sure a ‘Pirate Bay of Science’ Never Goes Down: Apercebi-me do estranho modelo de negócio da publicação científica quando estava a fazer a tese de mestrado. Consultava a bibliografia de cada artigo que lia para sustentar as premissas do meu trabalho de investigação, mas não raras as vezes esbarrava contra a necessidade de pagar, e não tão pouco quanto isso, para poder ver mais que o abstract de artigos. A razão disto tem a ver com editoras que recebem o trabalho de cientistas, enviam para análise por painéis de avaliadores voluntários, e cobram pelo acesso ao registo de investigação feita na esmagadora maioria por instituições públicas. É o modelo de negócio perfeito, na carreira investigativa e universitária publicar e rever é um requerimento, o que significa que estas editoras basicamente vendem material que não tiveram custos a produzir nem a avaliar. E por preços proibitivos. Tem havido movimentos para mudar isso (a publicação em Open Access é um deles, mas abriu espaço a práticas predatórias), mas pirataria tem sido a mais bem sucedida. Se na tese de mestrado tive de me restringir ao open access ou pesquisas muito cuidadas no Google (muitos dos artigos em acesso pago tinham versões nas páginas pessoais dos investigadores), na pós-graduação que terminei recentemente fiz uso liberal do Libgen sempre que se justificava. A questão de fundo é esta: não deveria a ciência produzida com financiamento público estar disponível livremente a todos, e não enclausurada por detrás de paywalls? (notem, se estão a usar a b-on, é o dinheiro dos impostos que está a pagar isso.)

The Mobile Dead Zone on Airplanes: Porque é que é difícil ter um bom sinal de rede móvel nos aviões, aterrados e no aeroporto? Em parte, pela blindagem electromagnética da fuselagem, em parte por os grandes espaços abertos dos aeroportos não se ajustam à tecnologia de células da rede móvel.

Teens aren’t addicted to their phones – but we like to think they are: Tema comum nas nove reuniões de conselho de turma de quintos anos que tive durante o mês passado (lecciono 18 turmas): colegas a queixarem-se da praga dos telemóveis nas mãos dos meninos, porque passam os intervalos a jogar naquilo. Tento desmontar o mito, porque 1, nada mais natural para meninos de dez anos que estão na nova escola, com novos dispositivos oferecidos pelos pais (efeito novidade) e acesso wifi; 2, é verdade que nas primeiras semanas de escola os miúdos passam intervalos agarrados aos telemóveis, mas a minha experiência fez-me notar que se dissipa à medida que as novas amizades se vão aprofundando e vão encontrando novos pontos de interesse. Ainda há o argumento 3, francamente qual é o problema de se distrairem dez minutos a jogar depois de mais uma secante aula instrucionista de ver o professor a debitar matéria e ruminar exercícios, mas esse argumento torna-me persona non grata na sala de professores. Não que não haja problemáticas associadas a estes dispositivos nas mãos de crianças (segurança, o gerir a atenção face aos algoritmos de maximização de visualização, ou exposição a conteúdos falsos ou violentos, e a ideia confortável de remover o telemóvel do espaço escolar apenas mostra incapacidade e até que ponto os profissionais da educação se demitem de ajudar os seus alunos a enfrentar o mundo real – até porque em grande parte os professores desconhecem profundamente esta tecnologia). Mas os pânicos assentes em estudos algo duvidosos que asseguram que os telemóveis viciam os jovens são falsos. Assentam em evidências de circunstância, e raramente tentam encontrar padrões de uso que realmente comprovem padrões massificados de adição. E muitas vezes, o que face ao telemóvel é visto como vício perigoso, é tido como perfeitamente natural e até considerado positivo com outros comportamentos. Como leitura, por exemplo: “The most common survey includes several questions that could merely indicate high levels of phone use without it necessarily being a pathological medical condition. Questions include whether people use their phone for longer than they had intended, whether it had caused them to miss some planned schoolwork, or if they had been told by others they were using it too much. Can this really identify addiction? Substitute “phone” for “book” and you can imagine a keen reader answering yes to many of these questions, but we don’t tend to despair about reading addicts”.

This is how Facebook’s AI looks for bad stuff: Redes neurais treinadas para detecção e classificação de formas em imagens e vídeos, treinadas com um misto de etiquetagem e vídeos violentos dos arquivos internos da polícia londrina, é o sistema que a rede social usa para automatizar a detecção, análise e eliminação de conteúdos violentos.

How Boston Dynamics Is Redefining Robot Agility: O nome desta empresa é sinónimo da bleeding edge da robótica. Os seus vários robots e a tecnologia desenvolvida, em destaque neste artigo da IEEE Spectrum.

Cards Against Humanity writers are battling an AI to keep their jobs, and you can watch: Esta empresa é conhecida pela fina ironia dos seus jogos de cartas. E, também, por usar os esquemas publicitários black friday para criticar o capitalismo selvagem. Este ano, decidiram colocar uma equipa de escritores humanos a competir com uma IA na construção de textos ao gosto dos fãs da CAH. Ganha quem vender mais.

The fall and rise of a spyware empire: Recordar a Hacking Team, a empresa italiana reconhecida como capaz de desenvolver sofisticadas ferramentas de ataque informático, e a sua queda devido a associações com regimes políticos criminosos.

Robot Gift Guide 2019: Fãs e regulares leitores das Capturas, estamos próximos do natal, e se me quiserem recompensar pelo trabalho de vos trazer semanalmente leituras intrigantes, não vão mais longe. Este vosso escriba contentar-se-ia com um Aibo. Brincadeiras à parte, este guia very high tech tem alguns robots que desconhecia.

Modernidade

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Take Picture: Um tesouro esquecido num obscuro site de partilha de fotos da Estónia. O trabalho de um fotógrafo amador, que trabalha como contínuo no World Trade Center durante a noite, e aproveitava para fotografar os espaços destes edifícios. E, com isto, criou inadvertidamente um registo do que era a vida naqueles edifícios. O banal, por vezes, até pode ser sublime. O artigo conclui com uma frase inspiradora: “Take picture now of what we have”. Porque os momentos não se repetem.

My 27-Hour Vacation in Singapore’s Changi Airport: Quando um aeroporto se transforma numa ecosfera controlada. Um espaço irreal de serviços e natureza decorativa, naquela que é a leitura mais ballardiana dos últimos tempos.

Britain’s Secret War With Russia: Sem grande poderio económico, e com menos capacidade militar do que aquela que alardeia, a Rússia não deixa de exercer a sua influência global, e safa-se com muitas coisas que noutros contextos levariam à guerra – como efetuar ataques químicos em cidades europeias, ou anexar território a países soberanos. Parte do sucesso russo explica-se pela disposição em ignorar todas as regras. Outra parte é a sua enorme capacidade de desinformação, saturando os media globais com notícias falsas.

How To Steal A Soviet Helicopter: Uma aventura divertida dos tempos da Guerra Fria, com as estratégias do exército americano para capturar um helicóptero Mi24 Hind soviético, abandonado pelos libios no Chade.

Os grafitos do Mosteiro da Batalha e o escopro de um erudito desalinhado e rebelde: No nosso gosto pela imagem de suposta pureza estética dos monumentos do passado, surpreende a descoberta do gosto humano em deixar a sua marca, mesmo que esta não passe de rabiscos nas paredes. Cinco séculos depois, o que seria vandalismo é um fio que nos liga à humanidade do passado.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.