O ano de 2019 acabou com o lançamento do foguetão chinês Long March-5 Y3. É um lançador super-pesado que coloca a China numa posição de grandes expectativas na exploração espacial. Para já, será aquele que vai ser o responsável por levar carga para a construção da Estação Espacial da China, e que por ter a capacidade de levar toneladas de carga para a órbita, poderá servir para missões em Deep Space, respondendo assim às ambições de colonização da Lua e na possibilidade de enviar a primeira missão chinesa para explorar Marte e outros corpos celestes.

Por agora levou a bordo apenas o satélite Shijian-20, que pesa mais de oito toneladas.

O Foguetão “Game-Changer”, para a China…

Long March , Longa Marcha, China
Créditos: CCTV/Inside Outer Space screengrab

Dois assuntos ressaltam à nossa apreciação quando se fala no Long March-5 Y3: o primeiro é o facto de se afirmar como um verdadeiro hino ao Comunismo. “Long March” é uma homenagem à história do Comunismo, e isso é patente na tradução linguística da designação que lhe foi dado em língua chinesa: o foguetão “Changzheng“, que o Ocidente traduziu por Long March 5 Booster (o foguetão construído para “longas marchas”).

Se conhecemos o dolar americano como a moeda mais forte do mundo, e os EUA como a Economia melhor sucedida, também outras nações têm calmamente conseguido o seu lugar no xadrez mundial. Até 2015 a China foi consecutivamente a economia mundial com maior crescimento, subindo 6% ao ano durante os últimos 30 anos.

Existe assim uma clara afirmação do poderio económico da China, e da afirmação do seu modelo de sociedade. Mas não é só isso: De facto a China beneficiou efectivamente dos “desastres” dos EUA. Por exemplo, é pacífico afirmar que a China recebeu um número claramente superior de pedidos comerciais relacionados com Espaço após o acidente com o Space Shuttle Challenger em 1986. Aliás em 1988 o Presidente dos EUA, Ronald Reagan, concordou em “dar uma chance” à China contratualizando o lançamento dos satélites norte-americanos em foguetões chineses (uma vez que a alternativa seria pedir isso à Rússia, o que na altura seria impossível politicamente). Por isso as primeiras cargas estrangeiras dos foguetões chineses são americanas e foram lançadas a 3 de Março de 1990.

O segundo assunto diz respeito ao poder do Long March-5 Booster (ou Y3): É que é o maior foguetão feito pela China até aos dias de hoje… É um foguetão (ou foguete, para quem preferir) grande, com dois estágios aos quais se juntam 5 boosters laterais, o que lhe dá um poder de impulsão absolutamente impressionante.

O Long March-5 Booster chinês é capaz de transportar 25 toneladas de carga útil para a órbita baixa da Terra, 14 toneladas para a órbita de transferência geoestacionária, e oito toneladas para a órbita de transferência da Terra-Lua ou cinco toneladas para a órbita de transferência da Terra-Marte.

Ora, se há um corrida aos recursos do Espaço, tanto para exploração dos recursos lunares como o Helium 3, ou o próprio metal amachucado que está comprimido debaixo do Pólo Sul  lunar (numa dimensão aliás superior à maior ilha do arquipélago do Hawaii), um vez que esta zona é um cemitério de asteróides; E para além disso há a Missão Apis da NASA, que visa dar início à mineração de asteróides, e que é a maior fonte de riqueza do sistema solar, bem como se está a dar os primeiros passos no sentido de colectar energia solar no Espaço e envia-la para a Terra (resolvendo assim a dependência dos combustíveis fósseis). Em tudo assistimos a uma mudança de infraestrutura terrestre para uma infraestrutura espacial, numa mudança que se dará na década de 2020/30, e que é a maior mudança da Humanidade até ao momento.

Por todas estas razões ganhará a corrida ao Espaço as nações que mais investem no desenvolvimento do seu programa espacial, nomeadamente através da construção de SpacePorts, de desenvolvimento de lançadores (nomeadamente de lançadores com capacidade de levar elevadas quantidades de carga útil para o Espaço (e de preferência reutilizáveis), com vista à construção de postos avançados (espaciais), para lançamento de missões complexas.

O Long March-5 Booster responde a esse nível de ambição, apesar de não ser um lançador reutilizável. Contudo tudo isto que foi descrito anteriormente foi explicado por Wu Yanhua, vice-diretor da Administração Espacial Nacional da China (CNSA), quando no dia 27 de Dezembro declarou o lançamento do 5 Booster um sucesso. Nas suas palavras, descreveu o voo deste foguetão, como o passo necessário estabelecer as bases para uma série de futuros projetos espaciais para o país, incluindo a exploração de Marte, o retorno de amostras da lua e a construção da sua própria estação espacial.

Estação Espacial Chinesa, Estação Espacial China
Créditos: CMSA/China Legenda: Futura Estação Espacial chinesa (Criação artística).

Programa Espacial Chinês: uma história de “contratempos”!

A competência que a China tem mostrado e demonstrado, nomeadamente com a missão Chang’e 4 ao lado oculto da Lua, veio acompanhada de esforço, grande parte por causa de problemas com os seus lançadores no passado.

Os primeiros contratempos apareceram em 1992-96 com o Long March 2E. Tanto quanto se sabe haviam defeitos de projecto na carnagem que albergava a carga útil, o que provocou uma vibração excessiva do foguetão, sendo que em apenas 7 lançamentos que se realizaram durante estes anos os Long March danificaram os satélites Optus B2, Apstar 2 e o AsiaSat 2.

Também em 1996 o Long March 3B saiu da sua rota programada logo após a decolagem e colidindo com uma aldeia próxima. Nesse acidente foi determinado no imediato a morte de  6 pessoas, e naturalmente perdeu-se a carga transportada, que neste caso era o satélite Intelsat 708. No mesmo ano falhou o lançamento do Chinasat-7.

Como consequência disto, a China também sofreu um embargo dos EUA, uma vez que a carga transportada (o Apstar 2 e o Intelsat 708), pertencia a empresas americanas. Mas não só… Também apareceu o “Relatório Cox” (que está na origem deste embargo) como ficou conhecido, ou melhor o Report of the Select Committee on U.S. National Security and Military/Commercial Concerns with the People’s Republic of China, levantou diversas questões sobre armamento nuclear e actividades de espionagem chinesas aos Estados Unidos. De facto, associado ao desenvolvimento dos foguetões, estaria também contemplada uma “transferência” de tecnologia associada ao melhoramento de mísseis balísticos.

O Programa Espacial Chinês ganhou fôlego entre 2005 e 2012 quando os foguetões Long March aparecem novamente a lançar para a órbita da Terra os satélites fabricados pela empresa francesa Thales Alenia Space. No entanto a Thales Alenia Space foi forçada a interromper a sua linha de satélites em 2013, depois do Departamento de Estado dos EUA ter multado uma empresa norte-americana por vender componentes ITAR. Em 2016, um funcionário do Bureau of Industry and Security dos EUA confirmou que “nenhum conteúdo de origem dos EUA, independentemente da importância, independentemente de ter sido incorporado num item de fabricação estrangeira, pode ir para a China”.

Mas também houve os sucessos do Programa chinês: após a saída do Long March 2E do mercado, a China conseguiu 75 lançamentos de Long March’s bem-sucedidos entre 1996 e 2009, provando assim a fiabilidade dos seus lançadores. A China é hoje em dia a terceira nação com capacidade para voo espacial autónomo, depois dos EUA e da Rússia, e desde 2010 que os Long March representam entre 15 a 25% dos lançamentos de todo o mundo.

Long March, Longa Marcha, foguetão Chinês

Uma Longa Marcha…

O Long March-5 Booster, segundo as informações da China Aerospace Science and Technology Corporation (CASC), vai entre outras coisas lançar sondas para “explorar Júpiter e outros planetas do sistema solar”.

Este foguetão que foi construído no Centro de Lançamento Espacial Wenchang, na província de Hainan, no sul da China, e este é o seu terceiro voo. O Long March-5 fez seu primeiro voo em 3 de novembro de 2016, sendo que no entanto o segundo voo, o Long March-5 Y2, sofreu uma falha minutos após a decolagem, em 2 de julho de 2017.

Para este lançamento de 27 de Dezembro, os engenheiros identificaram a falha anterior nos motores do primeiro estágio do foguetão. “Fizemos melhorias no design, materiais e tecnologias do motor”, disse Li Dong, designer-chefe do foguete Long-March-5 da Academia de Tecnologia de Veículos de Lançamento (CALT) da China, sob o CASC.

Foram cerca de 200 melhorias tecnológicas que o Long March recebeu, tendo sido efectuados cerca de 10 testes no solo com duração superior a 3.000 segundos no total.

Agora a China prepara-se para lançar com este Long March-5 Booster a nova missão Chang’e 5 à Lua (para trazer amostras lunares de volta à Terra), lançar a sua primeira missão a Marte (o Mars Lander a 5 de Março de 2020), e lançar o primeiro seguimento de construção da Estação Espacial chinesa em 2021.

A corrida ao Espaço vai acelerar ainda mais… A China pôs o Espaço a “ferver”!!!

 

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