A Constelação de Satélites Galileo, que é um Sistema Global de Navegação por Satélite (GNSS), tem tido um percurso atribulado, mas hoje em dia começa a afirmar-se como a melhor maneira de salvar vidas “perdidas”, e fazendo-o a partir do Espaço. Como funciona este sistema?

Começamos pelo básico: Existem dois grandes sistemas globais de navegação (ou posicionamento) via satélite, e são eles o GPS e o GLONASS.

O GPS (Global Positioning System) começou por ser declarado completamente operacional em 1995 (apesar de ter vindo a ser desenvolvido com fins militares desde 1973), e consistia então de uma constelação de 24 satélites que funcionava com relógios atómicos. Esses satélites tinham sido construídos pela empresa Rockwell (empresa da área da Defesa), uma vez que tinham com finalidade última justamente esse propósito: Defesa!

Por essa razão esse serviço multifacetado de GPS, após a presidência de Bill Clinton começou também a ser usado para controlar o direcionamento de diversos tipos de armamentos de precisão, como as bombas JDAM (Joint Direct Attack Munition) ou os famosos mísseis Tomahawk.

Só a partir de 2009 a melhoria dos equipamentos (substituição dos satélites L1 e L2 pelos L5) transformou o GPS em algo verdadeiramente funcional do ponto de vista do consumo público. Contudo, os conflitos mundiais fizeram com que os receptores terrestres de GPS fossem proibidos no Egipto até 2009, e ainda actualmente o sejam na Síria e na Coreia do Norte.

O GLONASS (Globalnaya navigatsionnaya sputnikovaya sistema), foi um sistema que russo que começou por ser inicialmente desenvolvido com fins militares, em 1976. O seu primeiro satélite-teste foi lançado em 1982, e o número de satélites foi progressivamente aumentando até 1993, altura em que o projecto estagnou por falta de financiamento. Com a chegada de Vladimir Putin ao poder na década de 2000, a implementação deste programa passou a ser considerada uma prioridade estratégica, e o GLONASS viu o seu financiamento aumentar substancialmente. Assim, a partir de 2011 o GLONASS já contava com 24 satélites e cobertura global, e actualmente este sistema encontra-se sob proposta de actualização completa até 2021, com a chegada da última versão dos satélites GLONASS-K.

GPS e GLONASS: Estes sistemas não são os únicos que existem…

A determinação económica da China nos últimos anos levou-a a não querer estar dependente nem do GPS nem do GLONASS, tendo vindo a desenvolver o seu próprio sistema que se chama Beidou-2, também conhecido como Compass.

O Compass encontra-se em estado de implementação e vai contar com 35 satélites (5 satélites geoestacionários e 30 satélites em órbita média da Terra).

Compass ou Beidou-2 é o sistema chinês de posicionamento global por satélite. Este sistema já em Dezembro de 2011 fazia a cobertura da China, e segundo se sabe até 2020 deverá ter capacidade global.

De facto, a Administração Espacial Nacional da China não apenas se envolveu na concepção do Compass como também participou activamente na implantação dos sistema de posicionamento global Galileo, ou seja no sistema de “GPS” europeu.

O Galileo

O Galileo é como já explicámos um GNSS – Sistema Global de Navegação por Satélite, e foi lançado em 2016 pela União Europeia, via a GSA (Agência Europeia de GNSS), cuja sede se localiza em Praga, mantendo dois centros de apoio (um nos arredores de Munique e outro em Fucino na Itália).

De facto, as tensões que se sentem no Espaço com a “crise das ASAT’s” (desde 2007 que são feitos testes de utilização de mísseis baseados em terra para destruir satélites no Espaço), que a Europa tem procurado manter-se independente do GPS e do GLONASS, os dois sistemas mais fiáveis, e que são utilizados por qualquer civil, por exemplo nos drones da DJI ou nos smartphones.

O Galileo quando estiver completamente implementado, servirá para medir com precisão a posição horizontal e vertical de um objecto, com a precisão de cerca de um metro.

A “aventura” do Galileo começou em 1999, quando dos três estados principais (Alemanha, França e Itália) na colaboração com a ESA, se uniram numa só equipa. O Galileo, ao contrário do GPS e do GLONASS foi desde sempre, e com base numa disposição com data de 26 de Maio de 2003, pensado para fins civis (e portanto não para finalidades militares como os outros dois).

Com a Alemanha e a Itália a destacarem-se nesta colaboração, o primeiro satélite de teste Galileo, o GIOVE-A, foi lançado em 28 de dezembro de 2005, embora o primeiro satélite a fazer parte do sistema operacional (Constelação Galileo) ter sido apenas lançado a 21 de Outubro de 2011.

A Julho de 2018 já estavam activos 26 dos 30 satélites que tinham sido projectados inicialmente, sendo que a 15 de Dezembro de 2016 a Constelação Galileo começou a oferecer “Early Operational Capability” (EOC) ou seja um cobertura global ainda com um sinal bastante fraco, sendo que se espera que a qualquer momento seja anunciada a “Full Operational Capability” (FOC), uma vez que estão 6 satélites activos, 24 satélites operacionais, estando ainda planeado a entrada em 2025 de satélites de uma nova geração, muito mais potentes.

As ameaças e polémicas sobre o Galileo…

O Galileo parece ir de vento em popa, apesar de desde 2001 os EUA estarem a fazer  algum tipo de Lobbing contra esta Constelação. De facto a questão nada tem que ver com uma questão mesquinha de tentar manter a Europa na dependência do GPS… São questões de segurança nacional que preocupam os americanos.

Na verdade a preocupação dos EUA é legitima, uma vez que o Galileo foi pensado para ser o sistema mais preciso de todos, e os EUA temem a utilização (por forças estranhas à Europa, como por exemplo a China) deste serviço, em ataques militares em território americano ou em território dos Aliados.

Como tal foi divulgado por fontes não identificadas da União Europeia, que estas já foram supostamente alertadas pelos EUA, que em caso de conflito global, se o Galileo for usado contra forças americanas, os EUA irão usar a força e começar a abater os satélites da UE. Por esta razão foi acordado o Galileo usar frequências diferentes do GPS, o que permite o  seu imediato bloqueio em caso de emergência, sem ter que se recorrer à força ou à destruição de satélites.

Mas o Galileo tem estado “quase sempre” envolto em polémica. Em 2011 a Wikileaks divulgou um relatório onde o CEO alemão da OHB-System (empresa de satélites) dizia que o Galileo “é uma ideia estúpida que serve principalmente os interesses dos franceses”. Também no mesmo ano a BBC seguiu o rasto a 500 milhões agariados para o Galileo, que ficaram por investir…

Ainda em 2017 as notícias de todo o mundo anunciaram que que 6 amplificadores “Maser” e 3 relógios atómicos da Constelação de Satélites Galileo, estavam avariados. Desde Março de 2018 que com o Brexit, a União Europeia quer a saída do Reino Unido do Galileo, e por aí fora…

Galileo
Crédits: European Space Agency

Mesmo assim é o Galileo que salva vidas…

Como mostra a vídeo inicial, a Europa entrou no mercado espacial salvando mais de 2000 vidas anualmente, através desta Constelação. Os pedidos de salvamento são agora retransmitimos aos socorristas que encontram o local com uma enorme precisão e rapidez.

Esta retransmissão de mensagens de SOS chama-se Link de Retorno e é exclusivo do Galileo. Com efeito foi anunciado a semana passada que as mensagens de SOS chegam agora com apenas alguns minutos (na grande maioria dos casos) e com um máximo de meia-hora nos casos mais complicados.

O Link de Retorno consegue-se através de dispositivos que são incluídos nos satélites, com uma massa de apenas 8 Kg e que consomem somente 3% da energia. Estes “pacotes” de busca e salvamento estão instalados ao lado da antena principal do satélite e dão pelo nome de Cospas-Sarsat. O conceito tecnológico remonta a 1979, a um consórcio que incluía Canadá, França, Rússia e EUA, sendo que actualmente o interface com o Galileo é  operado somente pela agência espacial francesa CNES.

A 21 de Janeiro de 2020 foi anunciado que a ESA estaria a reservar lançadores Ariane 6 e Vega C, para dar apoio extra ao Galileo.

Parece que em breve a Europa, apesar de todos os contra-tempos e infortúnios, vai ficar mesmo independente dos restantes sistemas de GNSS (Sistema Global de Navegação por Satélite), e simultaneamente com o sistema mais rigoroso do mundo!

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