New Space, Novo Espaço
Créditos: Bigelow Aerospace / NASA

O termo “Novo Espaço” ou “NewSpace” em inglês, refere-se à democratização do sector espacial. Durante muitos anos, o acesso à indústria espacial esteve restrito a instituições governamentais que detinham o monopólio do sector espacial. Na última década, a entrada de atores privados veio revolucionar a indústria e acelerar o desenvolvimento de um sector com um potencial gigantesco. Perceba como isto tudo aconteceu neste artigo.

O termo “Novo Espaço” tem gerado bastante debate entre especialistas. Apesar de não haver definição exata, existe o consenso que o termo se refere à estratégia de diminuir as barreiras políticas e económicas, facilitando o acesso à indústria espacial e à sua comercialização. Para isso foi preciso inovar, de maneira a diminuir radicalmente os custos e encontrar modelos de negócios que permitam a sustentabilidade financeira.

Os avanços tecnológicos das últimas décadas, nomeadamente a impressão 3D, a microeletrónica, o desenvolvimento de software e a facilidade em adquirir produtos “off-the-self” permitiram a entrada de novos atores na indústria espacial. Este progresso levou a uma mudança de paradigma. O sector espacial que outrora dependia fortemente de agências governamentais (e do apoio monetários dos contribuintes), transformou-se num sector mais independente, ágil, inovador e que trabalha com orçamentos muito menores que a indústria espacial inicial.

O avanço tecnológico e a quebra dos preços no Novo Espaço

Um dos maiores exemplos foi a redução drástica dos custos de acesso ao espaço protagonizada pela “SpaceX”, empresa fundada em 2002 por Elon Musk. Entre 1970 e 2000, o custo de lançamento de um quilograma para o espaço permaneceu estável na média de US $18500 por quilograma, por parte da agência espacial americana NASA. Então, a SpaceX decidiu inovar e construir foguetões reutilizáveis. Com o foguetão Falcon 9, o custo para aceder à Estação Espacial Internacional (ISS) diminuiu para os US $2720 por quilograma (calculado de acordo com os custos actuais da SpaceX).

De facto, o desenvolvimento e lançamento, de novos foguetões tem sido a atividade com maior relevância dentro do setor espacial. Isto acontece porque é a base para o desenvolvimento de outros negócios espaciais.

É importante para a sustentabilidade do sector ser capaz de aceder ao espaço de forma rápida e barata. Nesta atividade destacam-se, entre outras, as empresas SpaceX, Blue Origin, Rocket Lab, Virgin Galactic, PLD Space, Zero2Infinity, Space Vector, Gilmour Space, Relativity Space, LandSpace, etc…

Outra atividade impulsionadora da economia do “NewSpace” está relacionada com o desenvolvimento de nanosatélites, e o aparecimento do “CubeSat”. Até há cerca de dez anos, o mercado de satélites era liderado por grandes corporações e agências governamentais. Os satélites eram tipicamente projetos grandes, demorados e onerosos. Tal facto implica que as entidades eram forçadas a adotar uma abordagem mais segura de maneira a prevenir riscos. E isso diminuiu progressivamente a taxa de inovação na indústria de satélites.

A entrada em cena dos Cubesats ou nanosatélites

Recentemente, houve uma mudança de abordagem. Os satélites pequenos ganharam espaço no mercado uma vez que estão associados projetos mais rápidos e inovadores com menores custos de desenvolvimento e lançamento. Trazem também consigo novas funcionalidades, como é o caso de constelações de satélites. Nesta atividade destacam-se, entre outras, as empresas: Airbus Defense & Space, Thales Group, ST Engineering Limited, Surrey Satellite Technology, Space Exploration Technologies, Sierra Nevada Corporation, Thales Alenia Space, Planet Labs, Millennium Space Systems, Geooptics, Harris Corporation, Spire Global e Northrop Grumman Corporation. Visite este link para ver uma lista de missões espaciais de nanosatélites.

Novo Espaço, New Space, nanosatélites
Legenda: Número de lançamento de nanosatélites e previsões para o futuro. (Verde – já lançado, Vermelho – lançamento falhado, Azul – lançamento anunciado, Cinzento – previsão de lançamentos) Créditos: https://www.nanosats.eu/

No entanto, estas não são as únicas atividades associadas ao “NewSpace”. As ideias para negócios espaciais não param de surgir. Entre elas destacam-se o turismo espacial, a exploração de recursos, a mineração, serviços de internet e telecomunicações, observação terrestre, manufatura aditiva, recolha de lixo espacial e até serviços funerários no espaço! Pode consultar uma vasta variedade de outras atividades e empresas interessantes na economia “NewSpace” aqui.

Apesar do enorme impulso ganho pela economia privada espacial, é importante observar que as entidades referentes ao “Old Space” não desapareceram e não podem ser substituídos pelas empresas do “New Space”, sendo ainda hoje muito relevantes para a economia do espaço. Na verdade, as duas abordagens estão cada vez mais interligadas e associadas a um esforço conjunto.

Os Programas de incubação de Startups do Novo Espaço

Exemplos desta interligação são os programas de incubação, aceleração e financiamento de startups espaciais como o “Airbus Bizlab”, a “Copernicus Incubator” ou as “ESA Business Incubation Centres”. As startups trabalham em estreita colaboração com gigantes aeroespaciais ou agências governamentais para transformar suas ideias em negócios viáveis. Por exemplo, a Agência Espacial Europeia (ESA) concentrou-se em melhorar a vida na Terra, reutilizando desenvolvimentos de tecnologia espacial e dados de satélite em aplicações e setores terrestres. Iniciada em 2003, a rede de incubação cresceu para 18 centros em toda a Europa e promoveu mais de 500 novas startups. Outro exemplo foi o acordo entre a gigante aeroespacial Airbus e a empresa de constelação de satélites OneWeb para o desenvolvimento conjunto de aproximadamente 650 pequenos satélites para a distribuição global de Internet.

Assim, a inovação do “NewSpace” aliada à experiência tecnológica e conhecimento adquirido pelos atores do “OldSpace” tem conduzido a um crescimento da economia espacial mais rápido do que nunca na última década. Qual será o futuro desta economia?
Um relatório do Goldman Sachs previu que a economia espacial chegará perto de US $ 1 trilião na década de 2040. Um segundo estudo realizado pelo Bank of America Merrill Lynch projetou US $ 2.7 triliões até 2040. Atualmente, a indústria espacial está avaliada em US $ 350 biliões. De acordo com as projeções acima referidas, por forma a alcançar uma indústria de triliões de dólares na década de 2040 implicará uma taxa de crescimento anual média de aproximadamente 7%. Esse é o tipo de taxa de crescimento que a indústria espacial tem experienciado há já algum tempo.

Embora seja mais fácil chegar a conclusões gerais, o elevado número de variáveis e incógnitas dificulta a precisão destas previsões. Variáveis, como a disponibilidade de financiamento desempenharão um papel importante nos próximos anos. O financiamento é um problema que persiste na indústria espacial global, pois os investidores estão céticos quanto à viabilidade dos negócios espaciais a médio e longo termo. O crescimento do sector espacial dependerá da forma que os investidores sejam sensibilizados para os riscos e as recompensas da indústria, que prometem ser gigantescas no longo termo.

Atendendo a que a tecnologia não pára de evoluir, o custo de lançamento continuará a diminuir com o uso crescente de reutilização e da impressão 3D; os dados de observação da Terra serão cada vez mais preciso e acessíveis; e à medida que a indústria do NewSpace cresce, assistiremos à realização de ideias não ortodoxas e futuristas capazes de captar a imaginação do público.

Em suma, a democratização do sector espacial permitiu o aparecimento de novos negócios e inovações com um potencial tremendo no longo prazo. Será interessante verificar se as previsões referidas acima são verdadeiras para o setor e acompanhar a evolução de uma nova era de exploração espacial, desta vez impulsionada por fins comerciais e socioeconómicos.

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 Português e nascido em Coimbra, o Jorge é fascinado desde miúdo pelas ciências espaciais e pelo mundo do empreendorismo.   Actualmente, é diretor da SpaceWay e investigador do C-MAST (Center for Mechanical and Aerospace Science and Technologies), onde desenvolve diversos projetos de educação em nanosatélites. É ainda ponto nacional de contacto em Portugal pela SGAC (Space Generation Advisory Council).   Tem um mestrado em Engenharia Aeronáutica pela Universidade da Beira Interior, tendo realizado Erasmus na Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil, onde estudou Engenharia Aerospacial, Astronomia e Astrofísica. Especializou-se principalmente em análise de missão e pequenos satélites.   Faz parte da “Space Mafia”, sendo alumni da International Space University (ISU – SSP18), com especialização em Gestão e Negócios.   Participou ainda em diversos programas internacionais de educação espacial como ESA Alpbach Summer School (2016), ESA Concurrent Engineering Workshop (2017) e Space Station Design Workshop (2017) e venceu o prémio de inovação pela AIRBUS no concurso ActInSpace (2018). C-MAST www.spaceway.pt