Foi a 25 de Fevereiro, há dois dias atrás, que se deu um evento transformador no Espaço. Pela primeira vez uma sonda espacial comercial (ou seja, fabricada por privados) acoplou com um satélite em órbita há 18 anos, para lhe prolongar o tempo de vida. Falamos da missão Extension Vehicle-1″, a MEV-1 da Northrop Grumman, que atracou num Intelsat 901, que é um antigo satélite de comunicações com o objectivo de prolongar o seu tempo de missão.

Deste evento nasce uma esperança de que um dia seja possível fabricar satélites especializados, que possam reabastecer ou reparar regularmente os satélites mais antigos enquanto estes se mantêm em órbita, prolongando assim o ciclo de vida desses orbitadores. Mas não só: também é possível que essa nova classe de satélites (que se provou há 2 dias que resultam), possam no futuro fazer upgrades aos satélites ou possam mudá-los de rota, e assim reduzir a quantidade de lixo espacial auxiliando a prevenir o Síndrome de Kessler (ou a inviabilização de rotas espaciais).

Neste caso a vitória foi a toda à prova, uma vez que o satélite “técnico” que atracou no satélite moribundo por falta de combustível, foi um modelo da SpaceLogistics, subsidiária da Northrop Grumman (que por sua vez é um dos principais empreiteiros dia NASA), que nem sequer tinha sido inicialmente projecto para atracar ou acoplar-se a outros satélites (demonstrando assim que apesar de ser uma operação complexa, é de facto mais fácil do que se pensava). Isto mesmo foi esclarecido pelo Vice-Presidente da SpaceLogistics numa entrevista que se realizou quarta-feira com o New York Times.

Necessidade de testar o Espaço rapidamente, mesmo apoiando “inimigos”…

De facto o Mission Extension Vehicle-1, ou MEV-1, tinha já sido lançado em Outubro passado a bordo de um foguetão Pronton russo, e foi direccionado para esta missão. Um outra curiosidade é que o foguetão Proton onde foi lançado, é hoje em dia um foguete descartável que pode ser contratualizado através da ROSCOSMOS, para lançar carga útil no Espaço (tal como a SpaceLogistics fez agora). Contudo a classe Proton foi desenvolvida desde a década de 60, sob a designação UR-500 para ser um “Super” ICBM – Intercontinental Ballistic Missile ou simplesmente míssil balístico intercontinental  ou MBI. Os ICBM’s são projectados para terem um alcance de 5.500 Km ou superior, e são mísseis porque carregam ogivas nucleares.

O recondicionamento de uma arma de destruição em massa (UR-500) para um foguetão fez-se porque os ICBM’s foram desenhados para terem alcance e velocidades muito maiores que os sistemas de mísseis balísticos comuns, resultando por isso num sistema de foguetes Premium…

Actualmente acredita-se que têm ICBM´s operacionais a Rússia, EUA, França, Reino Unido, China e Coreia do Norte, sabendo-se que o Paquistão está a desenvolver a sua própria classe de ICBM’s. Aliás a tensão que foi gerada entre a Administração Trump e Pyongyang foi justamente o teste a 4 de Julho de 2017 de um Hwasong-14, que é um ICBM da Coreia do Norte.

Os EUA tinham assinado com a Rússia um acordo SORT, ou seja um Tratado sobre Reduções de Ofensiva Estratégica, conhecido também como Tratado de Moscovo, por ter sido assinado em 2002 (assinado por George Bush e Putin), nesta cidade. O objectivo era reduzir o armamento nuclear operacional para “apenas” 2.200 ogivas… Mais ou menos de dois em dois anos, delegações da Rússia e da EUA reunem-se para discutirem o cumprimento do Tratado de Moscovo. Contudo a urgência em testar tecnologia espacial uma vez que estamos num ambiente de corrida espacial, leva os EUA a “indirectamente financiarem” um sistema de propulsão com base na  Estratégia Ofensiva dos ICBM’s (que inicialmente serviu para poder “atacar” os EUA)…

Por esta razão o Proton é “mais míssil” do que foguetão, uma vez que tendo sido lançado em 1965, tanto quanto se sabe as únicas alterações de fundo que teve foram em 1967. No entanto é utilizado desde aí exclusivamente para missões espaciais, enquanto veículo descartável barato, tendo aliás sido os Proton a lançar as estações espaciais MIR e SALYUT. Os Proton são lançados a partir do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão.

Tudo isto contudo mostra bem que os tempos estão a mudar, e o que interessa é de facto quem tem a preponderância no Espaço, e para isso é preciso estudar novas mecânicas espaciais que tenham recebido o update das novas tecnologias emergentes. Assim sendo o preço de lançar para o Espaço passou a ser mais importante do que questões estratégicas de Defesa. A corrida ao armamento está a ser rapidamente a absorvida pela Gold Rush espacial.

Como vão funcionar as missões MEV no futuro?

O MEV-1 foi projectado e construído nas instalações de Northrop Grumman em Dulles, na Virgínia, e utiliza um sistema de acoplamento mecânico de baixo risco que se liga aos recursos existentes no satélite do cliente. Em concreto a Mission Extension Vehicle-1, ou MEV-1 nos últimos meses, percorreu mais de 40.000 Km acima da superfície da Terra até atingir o Intelsat 901, que se deslocava a cerca de 300 Km acima do arco geoestacionário da Terra (onde a maioria dos grandes satélites de comunicação opera).

Pode dizer-se que esta foi uma primeira missão de demonstração, uma vez que o MEV-1 tem que ficar acoplado ao IntelSat 901 para lhe continuar a fornecer o combustível adicional de que este necessita. Por esta razão após o acoplamento o MEV-1 vai ficar ligado ao IntelSat durante pelo menos 5 anos, até que o cliente deixe de pagar pelos serviços de extensão de vida útil do satélite. Nessa altura o IntelSat vai ser empurrado para uma “órbita cemitério”, onde não representará perigo para as sondas que se deslocam nas imediações da Terra.

Este assunto é importante porque com as enormes constelações de satélites que estão a ser lançadas na órbita da Terra por empresas como a SpaceX (com o Starlink), a órbita da Terra vai ficando cada vez mais confusa…

Por esta razão e segundo a administração da Northrop Grumman, as interacções futuras serão no sentido de inspecionar e reparar os satélites (ou até melhorar o seu desempenho), o que significa que muito provavelmente os próximos satélites que vão ser lançados vão começar a incorporar pequenas alterações que permitam uma intervenção mais simples. Caminhamos para um modelo onde os satélites terão assistência no Espaço.

O satélite de reparação MEV-1 pesa cerca de 2.300 Kg, e parou em frente ao IntelSat 901 dois dias antes de fazer a ancoragem ou “docking”, num processo de aproximação que começou aos 80 metros de distância.

A empresa SpaceLogistics tem programado lançar o seu segundo veículo de extensão de vida, o MEV-2, ainda antes do final deste ano, tendo sido já contratada para prestar serviços num IntelSat diferente. Essa segunda missão ficará a cargo de um lançamento via  Arianespace e utilizará um foguetão Ariane 5.

Após estas duas missões, apesar da Northrop Grumman poder continuar a criar MEVs adicionais, a empresa está já focada noutro sistema que funciona como um veículo robótico  que é uma nave-mãe no qual estão anexados Pods (robôs menores) que poderão fornecer esses serviços de extensão de vida dos “satélites-moribundos”.

Em resumo, o futuro será a utilização de robôs de reparação e de upgrades no Espaço… A missão MEV-1 é apenas o primeiro passo.

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