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Como podemos reagir à pandemia de Covid-19? É impossível não se sentir aturdido face à rapidez com que o mundo parou. Cidades de ruas desertas, com os seus habitantes em confinamento profilático. O horror dos sistemas de saúde sobrecarregados. Economias paralisadas, reduzidas aos serviços mais essenciais. A globalização, suspensa por um vírus. Estamos em crise, mas muitos recusam-se a baixar os braços e reagem. Neste artigo partilhamos duas notas, que mostram como a comunidade Maker e os Educadores usam as tecnologias e redes informais de partilha para ajudar a combater os efeitos da pandemia na sociedade. Duas notas que pecam por não transmitir o enorme dinamismo que se sente nestes campos

Makers: Encontram Sempre Uma Solução

Quando a crise pandémica se começou a agudizar, houve quem não se rendesse ao medo e baixasse os braços. Imediatamente, a comunidade Maker começou a procurar soluçoes, discutindo a possibilidade de construir ventiladores Open Source ou imprimir em 3D peças para equipamentos médicos. Depressa se debateu com alguns problemas. O tipo de ventiladores mais necessário para cuidados intensivos são máquinas complexas que exigem um elevado rigor de fabricação. A porosidade dos materiais comuns de impressão 3D poderão tornar as peças impressas num risco biológico se usados dentro de ambientes médicos. 

Mas os Makers encontram sempre uma solução. Unidos de forma dispersa, comunicando por redes sociais, encontraram formas de ajudar os profissionais que estão na primeira linha do combate à pandemia de Covid-19. Médicos e enfermeiros, mas não só. Assistentes de lares de idosos, agentes das forças da lei, qualquer trabalhador que tenha de contactar com o público nestes dias de isolamento social profilático. A partir do exemplo original desenvolvido pela Prusa, um dos nomes mais conhecidos do universo da impressão 3D, modificaram, criaram, ou recriaram modelos de viseiras faciais. Um modelo complementar de proteção para quem está na frente. Muito depressa, uma enorme rede informal composta por Makers individuais, Fablabs, empresas e escolas começou a colocar os seus meios de fabricação ao serviço desta causa. De forma voluntária, estão a entregar por todo o país milhares de viseiras fabricadas com corte laser, ou simples armações impressas em 3D que suportam acetatos. Os modelos criados pelos Makers foram adaptados pela indústria de moldes, capaz de produzir estes equipamentos à escala industrial. Hospitais, centros de saúde, lares, municípios e outras instituições têm sido os beneficiários desde enorme esforço de trabalho voluntário.

Redes Informais, Mas Coesas

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Viseiras impressas por Fausto Cardoso, em Oliveira do Bairro.

Sendo uma rede informal, é difícil apontar nomes. E, de certa forma, injusto, porque todos contribuem como podem. Mas quem acompanha as páginas do Movimento Maker Portugal vê a capacidade mobilizadora de Bruno Horta, um dos mais destacados membros deste movimento. O esforço incansável de Ricardo José Pereira, à procura de soluções técnicas e organizando redes de entrega de material. A generosidade de Marko Mauser, que tem fornecido livremente rolos de filamento para muitos Makers cujas impressoras começaram a ficar sem plástico para derreter. A estes, juntem a enorme comunidade que doa o seu tempo, articula com instituições, dá vazão aos inúmeros pedidos de material de proteção que aqueles que estão na linha da frente não dispõem.

Este esforço não se fica pelo Movimento Maker. Há mais iniciativas, entre a APT3D, Vamos Ajudar Portugal, ou a coordenação do Lab Aberto para produção e entrega de viseiras em toda a zona oeste, entre outras. É uma rede dispersa, feita dos esforços de inúmeros indivíduos que a nível local ou inseridos em organizações doam o seu tempo, trabalho, impressoras 3D e máquinas de corte laser. Num contexto muito específico, de produção em rede de peças consumíveis para equipes médicas, há um grupo que se dedica à produção de clamps de tubo orotraqueal. Entretanto, uma vez que a indústria se está a virar para a produção em série do tipo de equipamentos de proteção agora assegurados de forma voluntária pelos Makers, estes estão a analisar que outro tipo de peças a comunidade pode produzir para auxiliar quem está na linha da frente. 

Como não podia deixar de ser, tem havido situações polémicas. Os Makers escandalizaram-se quando instituições do ensino superior fazem adaptações e se apropriam de modelos criados e partilhados livremente pela comunidade. Outra tendência notada tem sido a de empresas ou particulares que colocam à venda viseiras impressas, lucrando a partir do trabalho gratuito. Mas nem isto os faz baixar os braços. Continuam a derreter filamento, doando o que imprimem a quem mais precisa.

Uma Educação que se Reinventa Em Modo de Urgência

Aulas via videoconferência e crianças: uma boa solução, ou um pesadelo de atentados à privavidade e exposição online de imagem de menores?

É discutível se o Ministério da Educação tomou as melhores decisões aquando da suspensão das atividades letivas presenciais, que colocou cerca de um milhão e meio de alunos dos vários níveis de ensino em casa. Apesar da decisão de encerramento ser previsível, a verdade é que quando foi oficializada, esta não incluía quaisquer linhas guia sobre como proceder com atividades para os alunos, para além de um vago e algo moralista “os alunos não estão de férias”. O que fazer, então? Como é que as escolas e os professores se mobilizaram, em muito pouco tempo, para encontrar soluções que pudesse mitigar os efeitos da suspensão das atividades presenciais, manter o contacto com os alunos, e ainda proporcionar experiências de aprendizagem à distância?

Novamente, o poder das redes entrou em ação. Em poucas horas, foram criados grupos de apoio em redes sociais, onde uns partilhavam os seus conhecimentos sobre plataformas digitais de e-learning, ferramentas e metodologias. Um movimento espontâneo, levado a cabo por professores que perceberam que a resposta para a educação nesta situação de emergência passava pela apropriação de ferramentas digitais que muitos não conheciam. 

Comunidades de Aprendizagem Online

Seguiu-se o contributo mais estruturado de associações de professores, especialmente da área da informática, cuja experiência de longa data com plataformas, tecnologias e metodologias de ensino à distância ajuda os potenciais utilizadores a guiarem os seus processos de aprendizagem rápida. Um auxílio precioso, especialmente para aqueles que têm de tomar decisões sobre que sistemas de comunicação e plataformas adotar para todo um agrupamento de escolas. E que permitiu refrear o primeiro momento caótico de enorme partilha de informação com indicações para reflexão. Eventualmente, até o ministério fez o seu trabalho e partilhou algumas indicações metodológicas.

Reagindo à emergência pandémica, a educação em Portugal está a reconverter-se para o digital. Uma reconversão de urgência, que não está isenta de problemas. Aliás, é bom perceber que este encaminhamento em direção ao e-learning e ensino à distância não representa de modo algum o caminho futuro da educação, mas sim uma resposta comunitária a uma situação atípica. Isso, aliás, sentiu-se logo nos primeiros tempos. Com crianças e famílias a adaptar-se a novos ritmos, e professores entusiasmados com novas ferramentas, depressa surgiram queixas de sobrecarga de tarefas aos alunos. Algo natural, tendo em conta a atipicidade da situação, mas que tem de ser repensado nos próximos passos que serão dados.

Educação À Distância, Mas Não O Seu Futuro

Todos percebemos que esta situação de pandemia não se irá resolver rapidamente. Embora a tutela da educação não tenha ainda revelado que decisões serão tomadas em relação ao terceiro período, escolas e professores já perceberam que a manutenção da ligação aos alunos terá de ser à distância. E que, para isso, os meios digitais serão essenciais.

No entanto, não são um remédio universal. No universo global da população estudantil portuguesa, há muitos alunos sem acesso a computador, ou que o têm de partilhar com pais em teletrabalho. Os telemóveis não resolvem tudo, porque nem todas as plataformas são adaptadas a dispositivos móveis. O envio de atividades pode ser através de documentos que não se ajustam a pequenos ecrãs. A possibilidade de videoconferência esgota rapidamente plafonds de dados. Isto, claro, se a criança sequer dispuser de acesso à internet. Junte-se a isto questões de privacidade e imagem de menores em meios digitais com níveis de segurança variável, algo que deve ser tido em conta em sistemas de videoconferência online, e não está a ser acautelado por professores que os usam. Ou os problemas da avaliação, ou decisão se será viável propiciar novas aprendizagens quando não estão asseguradas condições de igualdade de acesso. Nisto, a opinião da classe docente é quase consensual. Sabemos que será muito difícil, talvez impossível, chegar a todos e com isso cumprir a missão de igualdade da educação. Mas isso não é razão para não se tentar chegar o mais longe possível.

O que fica é a sensação de um enorme desafio, em que professores e escolas se têm empenhado além do expectável. Rever o que se faz, aprender novas ferramentas, encontrar formas de responder às condicionantes do estado de emergência. Com muitas discussões e dúvidas, mas a certeza de que, tal como os makers, os professores não baixam os braços e procuram soluções. No terceiro período deste ano letivo, é já certo que milhares de alunos manterão alguma ligação à escola e irão desenvolver atividades de aprendizagem em plataformas digitais implementadas por escolas ou grupos de professores.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.