Era inevitável, para observadores mais atentos. Dois dias depois do arranque do terceiro período em atividades letivas não presenciais, começaram os primeiros livestreams de invasões em aulas online por videoconferência. Aspirantes a YouTubers depressa instrumentalizaram as plataformas usadas por milhares de professores em todo o país, que usam estes canais para manter à distância o acompanhamento aos seus alunos. O público apercebeu-se da realidade de aulas virtualmente invadidas, chocando-se com as atitudes de ofensa para com os docentes. No entanto, apesar de darem nas vistas, estas poderão não ser as piores violações da imagem e privacidade de professores e alunos que acontecem nestes dias de uma escola diferente, que teve de se adaptar à realidade da pandemia.

Vulnerabilidade por Defeito

Não partilhamos streams que colocam em perigo a imagem de crianças e ofendam adultos. Preferimos mostrar… como os alunos vêem os professores, com muito bom humor.

É de notar que as imagens partilhadas resultaram da confluência de dois fatores. Docentes menos preparados para o uso seguro deste tipo de plataforma, e alunos seus que passavam os identificadores e acesso a reuniões para os livestreamers poderem penetrar. Ou seja, por tentador que possa parecer afirmar que estas invasões foram obra de hackers, ou exploração de vulnerabilidades em plataformas específicas, na verdade o método de invasão foi mais simples. Dependeu da conivência dos participantes nas videoaulas, muitos dos quais partilhavam acessos em tempo real nos chats. É aqui que reside o principal, mas pouco discutido, problema de privacidade para menores e adultos no uso destas ferramentas.

Antes do grande arranque das atividades não presenciais, uma das plataformas mais usadas tem estado sob o olhar atento dos jornalistas devido às suas vulnerabilidades técnicas. No entanto, estas são passíveis de resolução, e não representam o principal argumento contra o seu uso em meio educativo, embora as questões técnicas sejam sempre as mais apontadas. É de recordar que estes sistemas foram concebidos para outros tipos de uso, e estão a ser apropriados pela educação neste contexto de ensino remoto de emergência. Na verdade, a vulnerabilidade potencialmente mais gravosa afeta todas as potenciais plataformas de videoconferência. E reside não nos meios técnicos, mas nos próprios utilizadores.

O Ponto Fraco Nas Plataformas São As Pessoas

Quando um professor inicia uma videoconferência com um grupo de alunos, não tem qualquer controle real sobre estes. Na maior parte dos casos, os participantes respeitam as condicionantes da situação. Mas nada garante que um não esteja a abusar, subrepticiamente, da aula online. Não precisa de grandes conhecimentos técnicos para o fazer. É trivial usar software de captura de ecrã para gravar imagens e vídeo. Qualquer gamer ou aspirante a youtuber sabe usar programas como o OBS Studio ou o XSplit (referindo os mais populares) para gravar a imagem do ecrã e, se quiser, transmitir em tempo real para sites de streaming de vídeo. Ou, no limite técnico mais baixo, apontar o telemóvel e fotografar o ecrã.

A possível gravidade disto está no uso a que este tipo de capturas tenha. Invadir aulas via zoom para brincadeiras ofensivas em streaming de vídeo é uma estratégia bastante pateta, e que deixa rastos suficientes para identificar quem o faz. Os potenciais problemas poderão estar no uso de meios e plataformas menos visíveis, quer por serem pouco conhecidas dos professores e do público em geral, ou por terem fortes restrições de visibilidade pública na sua concepção.

O Que Pode Correr Mal, Vai Correr Mal

plataformas
Será legítimo correr o risco de expor a imagem de menores, mesmo que em contextos de ensino de emergência?

Não é difícil imaginar um participante mais mal intencionado a capturar imagens e vídeo para posteriormente as partilhar em redes fechadas. A usar screenshots adulterados para memes ofensivos, ou mesmo imagens lesivas do bom nome de adultos e crianças, para práticas de cyberbullying. Eventualmente, até, situações de pedófilos que com isto ganham uma janela para o espaço privado de potenciais vítimas. Tudo circulando em grupos restritos de mensagens ao estilo Gab ou Whatsapp, servidores Discord, ou fóruns acedidos por convite. Serviços que passam por debaixo do radar da opinião pública, mais focada nas redes sociais tradicionais e serviços de vídeo principais. Não é boa ideia desvalorizar as capacidades de adolescentes entediados com acesso a meios digitais. Note-se que pode até nem ser um aluno a fazer isto, mas sim alguém em casa que tenha acesso ao mesmo computador. Também não é boa ideia desvalorizar a clássica lei de Murphy.

Estes sistemas são excelente estratégia pedagógica para manter em ensino à distância, embora de forma ténue, algo que é tão fundamental como o contacto humano. Mas na verdade, ao usá-los, professores e alunos estão a abrir os seus espaços privados à exposição pública. Foi neste sentido que a Comissão Nacional de Proteção de Dados se pronunciou nas suas orientações para utilização de tecnologias de suporte ao ensino à distância: “a realidade de bullying não desapareceu, podendo até ser potenciada pelo confinamento e utilização massiva destas tecnologias, pelo que o risco de reutilização dos dados com partilha dos mesmos, sem legitimidade para o efeito, como poderá suceder com a publicação das imagens e som em redes sociais ou noutras plataformas, bem como o acesso indevido aos dados e sua utilização para finalidades não legítimas (…)”.

Resta ainda saber sobre quem recairá a responsabilização caso as coisas corram muito mal com abusos das videoaulas. Serão os prevaricadores? Ou serão as escolas que recomendaram estes sistemas, ou os professores que geriram as sessões, muitas vezes de forma descuidada por desconhecimento dos meios técnicos? Ao serem proativos, muitos professores poderão estar a arriscar potenciais consequências legais de situações que escapam ao seu controlo, mas acontecerem em contextos por eles propiciados.

Videoconferência: Usar ou Não Usar?

Perante este quadro algo assustador, é impossível não se perguntar se o uso de meios de videoconferência é boa ideia. Na verdade, depende do uso. Apesar destes problemas de privacidade, não deixa de ser um excelente meio para manter um elo humanista de ligação entre professores e alunos. É de recordar que a escola não se resume à mera aprendizagem de conteúdos. O seu papel social tem estado em evidência ao longo destes dias em que, estando suspensas as atividades presenciais, se recordou que ir à escola é muito mais do que ouvir o professor. São os contactos sociais entre pares, todas as atividades que se passam no edifício escolar, e mesmo os apoios sociais que a escola fornece para muitos. Coisas que de tão habituais, só nos apercebemos quando por força maior as perdemos.

Apesar de ser impossível garantir uma securitização total, há formas de uso destes sistemas que podem evitar este tipo de problemáticas. Uns, são técnicos. Adotar medidas de segurança mais estritas, tornar as sessões o mais privadas possível. Cada plataforma tem as suas definições, e quem as usa terá de lhes prestar atenção antes de se lançar neste tipo de atividades. Outras são práticas. Não é necessário que todos os participantes tenham a sua câmara ligada durante toda a sessão. Desligando a imagem, já se retira um dos mais óbvios pontos fracos. Ainda traz a vantagem de trazer mais fluidez à sessão.

Da Ética à Tecnologia

Há ainda as de caráter ético, que é no fundo um dos grandes papéis da escolarização. Sublinhar regras e boas práticas, apelar ao sentido ético dos participantes. E, claro, haver proteção legal para intervir nas situações que sejam detetadas. A segurança nunca será total, mas pode ser reforçada combinando estes fatores.

As próprias plataformas terão algo a dizer sobre isto. Não surpreenderá se sistemas como a Zoom, Google Meet, Microsoft Teams, Webex e outras não estejam já a reforçar as suas definições de privacidade e seguranças. Se não o fizerem, será um erro que lhes trará consequências. Algo que não escapa à Zoom, a que tem estado sob escrutínio e que até deu origem ao adjetivo zoombombing, que indica o ato de invadir reuniões virtuais.

Usar, Sim, Mas…

O que fazer e não fazer usando meios remotos de aprendizagem,

Para muitas escolas e professores, o uso de videoconferência replica o modelo de ensino tradicional. Em vez de aulas presenciais de 50 minutos, estruturam-se horários similares à distância, em que os alunos estão online durante o tempo que estariam na aula. Uma estratégia muito apreciada em colégios, e também adotada por escolas públicas mas que está profundamente errada. Revela completo desconhecimento do que é ensino à distância, mesmo neste contexto em que não podemos falar de verdadeiro EaD mas sim de educação remota de emergência.

Fora dos espaços físicos da escola, as atividades têm de ser adaptadas. Aliviadas, para integrar os diferentes ritmos pessoais, as necessidades das famílias, que poderão ter poucos meios digitais para dividir entre crianças em aulas online e pais em teletrabalho. Mais vale leve e desafiante, do que excessivo e a roubar tempo. O ensino à distância requer grandes capacidades de auto-disciplina e gestão de tempo, em si difíceis para adultos, quanto mais para crianças.

Nisto, os sistemas de videoconferência podem dar uma ajuda se usados pontualmente. Não como momentos de longa exposição que replicam o pior do ensino presencial, mas como ponto de encontro pontual, que revitaliza relações entre professores e alunos. E o resto das interações serem feitas de outros modos, síncronos, mas especialmente assíncronos. Para que todos os envolvidos prossigam os seus projetos, reforcem as suas aprendizagens, ao seu próprio ritmo e tempo. No entanto, devido aos problemas que já mostraram levantar de exposição de imagem de menores, o seu uso deve ser muito bem ponderado.

Impossível é o Novo Normal

Uma das características destes tempos de pandemia é que tem tornado os impossíveis num novo normal. Há poucos meses, a ideia de ter milhões de crianças dos vários ciclos de ensino a estudar e aprender em meios digitais à distância teria sido considerada uma loucura improvável. Hoje, é o normal. Milhões (não é um exagero, mesmo no caso português) de alunos mantém a ligação à escola através de plataformas usadas por professores. Estes tiveram que, literalmente, reaprender tudo o que sabem sobre ensinar em poucos dias. Sistemas que não são isentos de problemas.

Não há plataformas totalmente seguras, as probabilidades de serem desvirtuadas nunca são zero. Mas, qual é a alternativa? Parar e deixar ao abandono todos aqueles para quem a escola o meio pelo qual podem tornar-se pessoas melhores? Com a criatividade e tenacidade que lhes são habituais, aprendendo a usar tecnologias que muitas vezes lhes são estranhos, os professores têm conseguido fazer o impossível. Mas o risco deste esforço ser desvirtuado para as piores consequências possíveis não é negligível. Ao fazer o nosso melhor, temos de ter cuidados para que não aconteça o pior. Por vezes, isso passa por não usar o que aparentemente é mais vantajoso. Mas essa decisão, cabe a cada um. Bem como a capacidade de responder às eventuais consequências.

***IMPORTANTE***

Não se esqueça de ajudar o Bit2Geek a crescer nas redes sociais, para termos mais colaboradores e mais conteúdo, 👍? A sua ajuda muda tudo!

***E clique em baixo para saber mais…

Pensar Digital: A Tecnologia no Cérebro

Artigo anteriorCapturas na Rede, 18 de Abril: Isolamentos Sociais
Próximo artigoMercado “Biohazard”: como matar qualquer vírus com em segundos?
Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.