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Agosto profundo, e o cérebro pede estímulo neuronal para os dias de canícula. Sugerimos uma micro-curta de Star Wars com sotaque açoriano, vislumbrar as capas espantosas das revistas de BD de terror dos anos 70, ou a incrédula vontade da Arábia Saudita em organizar a Worldcon 2022. Na tecnologia, descobrimos algoritmos que se auto-programam, a história dos aceleradores de partículas e o impacto das redes de internet móvel nas comunidades remotas do ártico. Ainda se fala da arte natural da treta, da beleza do Kitsch ou das melhores recomendações de segurança para os voos. Estes são os destaques, mas há mais a descobrir nas Capturas da semana.

Ficção Científica e Cultura

A Última Galáxia (2020): A melhor surpresa audiovisual das últimas semanas. Uma paródia retro às más cópias italianas de filmes de ficção científica tipo Star Wars (todo um subgénero de filmes terríveis, mas com décors fascinantes), com sotaque açoriano  e efeitos especiais deliciosamente schlock. Concorrente às microcurtas do MOTELx 2020.
The wonderfully weird cowboy psychedelia of “Some Velvet Morning”: É um dos mais interessantes discos da pop/jazz retro, especialmente por ser tão bizarro e psicadélico.´
Scream Covers, 1973-74: Se estas capas são fantásticos exemplos da estética decadente do horror dos anos 70, o conteúdo não lhe fica atrás. Vendidas como revistas e não comics, estas edições esquivavam-se ao espartilho do código de auto-censura dos comics americanos. Para mais, investiam em artistas espanhóis, especialistas num gótico vitoriano que fez escola. As histórias estão datadas, mas o estilo gráfico destas revistas merece ser conhecido.
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Charles Scheneeman – Illustration for E. Hunter Waldo’s “The Ultimate Egoist”: Se forem daqueles que se arrepiam com insetos, esta imagem não é para vós.
Announcing the 2020 Hugo Award Winners: A Worldcon 2020, que decorreu virtualmente na Nova Zelândia, divulgou os finalistas e vencedores dos prémios Hugo deste ano.
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Eddie Jones: Space opera.
Los 21 mejores libros de ciencia ficción: Esta, é daquelas listas em que todas as sugestões são excelentes. É mesmo do melhor da literatura de ficção científica.
Cosplay at a 1966 Science Fiction Convention: Recordar que aquilo que hoje é uma das áreas quentes do fandom pop/fantástico/sci-fi tem raízes longas. Se o cosplay hoje se encontra muito desenvolvido, com circuitos próprios de partilha, exibição e competição, tem sido um dos elementos estruturantes da cultura de fãs que anima a ficção científica.
Manchu: Visões clássicas.
La Commedia dell’arte: Um curto webcomic originalmente publicado na CAIS, escrito por Pedro Moura e ilustrado por Daniel Rico. Há que apreciar um certo apelo de decadência art-deco.
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Darrell K Sweet: Fora da casca.
Bob Eggleton: Outro dos clássicos.
12 Underrated Cyberpunk Films You Should See : Orem a S. Torrente nas redes, mergulhem profundamente no netflix. Estas sugestões contém alguns clássicos, algumas surpresas, e alguns filmes obscuros que são de culto.
On Sex with Demons: Face a algumas polémicas sobre uma médica-charlatã que apanhou o ouvido do senil presidente Trump, que para além das obviamente falsas observações sobre cura da Covid-19, ainda tem uns conselhos sentimentais a dar sobre sexo e demónios, o Going Medieval elevou-se à altura. Recorda-nos a longa história da superstição sobre a influência sexual malévola de espíritos demoníacos. O que até está muito bem para os tempos em que a ciência era elementar e as pulsões e psiques eram interpretadas como influências de espíritos, mas no século XXI só deveria ter lugar como argumento para conto de terror, ou documento histórico.
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Rodney Matthews: Entre fantasia e ficção científica.
Authors condemn Saudi Arabia’s bid to host World Science Fiction Convention: Deixem-me ver se percebi. Uma teocracia medievalista retrógrada, patriarcal, misógina e homófoba, assente na riqueza de exploração de combustíveis fósseis, e com um historial abismal de desrespeito pelos direitos humanos quer ser anfitriã da Worldcon em 2022? Porquê? É algum plano secreto dos clérigos sauditas para purificar o planeta, aniquilando impuros hereges? É que a esmagadora maioria de fãs e criadores ligados à Ficção Científica tem exatamente o tipo de ideias que, na Arábia Saudita, são recompensadas com calabouço ou decapitação.

Tecnologia

 

An Observer ToL – Sierpinsky, Ikeda, Log, Navier-Stokes, 2020: Peça de arte generativa de André Sier, entre vídeo e modificação de fluxos de dados por algoritmos.
Even Facebook Is Pining for the Internet It Destroyed: Dá uma certa vontade de falar disto com o tom de voz quebrado do sábio idoso. Alguns de nós recordam-se de uma internet mais vibrante, criativa e amadora antes das redes sociais terem uniformizado o estilo de vida online, centrado nos seus cuidados jardins amuralhados, com os utilizadores longe das zonas selvagens da internet livre (sim, acabei de fazer uma referência à ideia aberrante para os digerati digitais do princípio do século XX que era o walled garden). Ironicamente, o próprio facebook está a trabalhar numa app que tenta voltar a trazer o espírito dos velhos tempos do Geocities. Fico sem perceber se isto é cansaço com a monotonia extremizada e monetizada das redes sociais, ou nostalgia pela ideia bucólica dos bons velhos tempos de uma internet mais simples – que não o era, o discurso extremista, radicalizado ou falso conspiratório já existia, disperso em inúmeras páginas e newsgroups. E para aqueles que se chocam com os choques apanhados pelos mediadores de conteúdos das redes sociais, que estão expostos a conteúdos violentíssimos, deixo só uma palavra: Ogrish. Era o sítio a visitar para quem quisesse ver vídeos violentos, entre execuções sangrentas a imagens mórbidas, nos anos 90.
TheirTube: Visit Radically Different YouTube Recommendation Bubbles: O poder computacional dos algoritmos que sustentam os principais serviços de redes sociais na internet permite que cada um veja informação não de forma generalista, mas ajustada ao seu perfil de utilizador. É o conceito de bolha informacional, algoritmizado para maximização de lucros das plataformas. Se estiverem curiosos para saber o que é que o YouTube recomenda a conservadores, trolls, anti-ambientalistas, extremistas e o resto dessa igualha, explorem o TheirTube.
PATENT LAW AND THE LEGALITY OF MAKING SOMETHING SIMILAR: Algo a ter em conta quando se é maker e criativo. O que é criar ou recriar, e o simplesmente copiar? A comunidade maker é conhecida pelo seu espírito livre de partilha e remistura, mas por vezes embate-se com projetos comerciais que estão devidamente patenteados, ou pior, com trolls de patentes. Algo com que já me deparei num dos meus projetos de robótica educativa, que acabei por suspender para evitar eventuais problemas legais. Porque nestas coisas, somos sempre o pequeno maker individual, com recursos limitados, a ter de enfrentar empresas ou instituições. A lógica acaba por ser pensar que não vale a pena perder tempo e seguir em direção a novas ideias. Direitos de autor e criatividade é terreno difícil, a diferença entre a inspiração e o construir sobre ideias já existentes, desenvolvendo-as ou adaptando-as para outras áreas, e a cópia pura é por vezes muito ténue. Claro que no caso deste artigo no Hackaday, se o projeto final do maker é indistinguível do produto comercial, essa fronteira quase se dilui, e só existe porque estamos a falar de alguém que se inspirou e usou os seus conhecimentos técnicos para recriar uma peça, sem fins comerciais. A ironia destas polémicas é que basta ir a uma loja online chinesa para comprar clones low cost e que se lixe a propriedade intelectual de praticamente tudo. Até mesmo projetos maker, que são apropriados comercialmente.
A new neural network could help computers code themselves: O GPT-3, com a sua capacidade de escrever código, indica um futuro próximo onde a programação se tornará mais acessível e automatizada. Multiplicam-se os projetos de apps no code, bem como o desenvolvimento de inteligências artificiais capazes de programar. O objetivo não é de substituir programadores, ou tornar toda a programação num processo automatizado. Mas sim, criar interfaces para aqueles que não têm experiência ou conhecimentos na área para desenvolver as suas aplicações.
Disinformed to Death: Na nossa realidade mediada por ecrãs, este tema tornou-se central. Como podemos aferir a veracidade da informação que consumimos, sabendo que há imensos interesses, entre lobbying comercial e político, trolls extremistas ou potências hostis a desenvolver ações de desinformação (o que denominamos por teorias da conspiração, ou fake news)? Não é uma questão de resposta fácil. Mas talvez ajude perceber que não estamos a viver nada de excecional. Na verdade, a desinformação é uma velha arma na política e geoestratégia. O que o mundo digital nas redes trouxe foi a sua aceleração.
SMASHING THE ATOM: A BRIEF HISTORY OF PARTICLE ACCELERATORS: Uma curta história das máquinas que nos permitem perscrutar o universo dos átomos.
How cell phones and Facebook are changing remote Nunatsiavut: Nas regiões remotas do mundo, a conectividade trazida por redes móveis traduz-se numa revolução cultural, vista com desconfiança por aqueles que temem a extinção de tradições, mas bem recebida pela maioria pela forma como facilita os laços entre pessoas muito dispersas.
YouTube: Designed To Seduce?: O problemático algoritmo de recomendações do YouTube, infame pela forma como direciona os utilizadores para versões progressivamente extremas do conteúdo que visionam. É um algoritmo desenhado para dar mais do mesmo, quaisquer que sejam as consequências disso.
GPT-3: an AI game-changer or an environmental disaster?: Um ponto de vista por vezes aflorado, mas raramente discutido quando se fala de Inteligência Artificial. Os enormes avanços a que temos assistido são, ao seu nível mais elementar, puro poder computacional aplicado a enormes conjuntos de dados. E esse poder tem um preço ambiental – são precisas mais máquinas, mais redes de processadores, maior consumo de energia.
Eli Lilly is testing a way to prevent covid-19 that’s not a vaccine: Isto seria um enorme reforço no combate à pandemia – uma terapia que diminua o impacto da doença após ser contraída.
Projetos de inovação à medida: Um pequeno apanhado dos projetos de I&D em que a portuguesa Beeverycreative está envolvida trabalhando em redes internacionais, desde o bioprinting à impressão 3D de metais.
#MeTooSTEM founder admits to creating Twitter persona who “died” of COVID-19: E, qual é a surpresa? Desde pessoas com intenções fraudulentas a bots, o que mais prolifera por aí são contas falsas em redes sociais. É a maneira mais fácil de explorar néscios no século XXI.
Un prototipo de la gigantesca Starship de SpaceX consigue finalmente realizar un vuelo de prueba con éxito: Só mesmo a Space X para ter a lata de lançar algo que se parece com um bidon voador. Este teste é um passo para o desenvolvimento do projeto Starship.
MTU’S JOSHUA PEARCE DEVELOPS OPEN SOURCE, COMPUTER VISION-BASED PRINT CORRECTION ALGORITHM: Uma técnica interessante. Essencialmente, o sistema de visão computacional sobrepõe um modelo da peça a imprimir sobre a captura de imagens comparando-o com o objeto durante o processo de impressão.
U.S. AIR FORCE SET TO FIT B-2 STEALTH BOMBER WITH ITS FIRST 3D PRINTED PART: Não será uma peça estrutural, mas mostra que a impressão 3D é uma solução eficaz para manutenção de baixo custo de aeronaves ao longo da sua vida útil.

Redes de Modernidade

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This New Jersey Coronavirus Poster Is Freaking Everyone Out: Um excelente exemplo de terror inesperado. A mensagem é anti-covid, mas não ficaria nada mal como cartaz de filme de terror. Aquelas figuras têm o seu quê de gentes de Innsmouth (conhecedores de Lovecraft percebem esta).
El vídeo de seguridad aérea honesto que deberían poner antes de cada vuelo: E por vídeo honesto, é mesmo honesto. E surpreendente, na forma como nos dá estatísticas inesperadas sobre a aviação. Fiquei a saber que um dos maiores perigos no ar é o carrinho da bebidas, e da absoluta inutilidade dos coletes salva-vidas. Entre outras informações verdadeiramente úteis.
In Defense of Kitsch: Kitsch, ou o foleiro elevado à categoria do interessante, em parte pela bizarria estética, em parte pela sua inocência. Mas também recordar o elitismo inerente à classificação de kitsch, no fundo uma forma erudita de designar o que é considerado mau gosto. Posto isto, o menino da lágrima (haverá maior exemplo de kitsch português, que me perdoem a cerâmica fálica caldense os os esforços esganiçados dos cantores pimba) não deixa de ser foleiro.
How Books Became Cheap: Uma linha de tempo que detalha as tecnologias que permitiram a progressiva acessibilidade dos livros.
The New Nuclear Threat: Se os tempos da guerra fria, da destruição mutuamente assegurada parecem ter passado, as grandes potências globais e regionais continuam a dispor de apreciáveis arsenais de armas nucleares. Entre os riscos da proliferação nuclear, envelhecimento dos arsenais, jogos geopolíticos de desenvolvimento de novas armas e o risco de redes de cibersegurança, não podemos deixar de ter medo dos cogumelos nucleares.
The Strange Lives of Objects in the Coronavirus Era: Quem diria que objetos como máscaras faciais, luvas ou termómetros se iriam tornar tão essenciais no dia a dia? Neste artigo, um catálogo de objetos que se tornaram parte das rotinas diárias nestes dias de pandemia.
Top 10 Over-Rated Military Aircraft: Os puristas vão apanhar chiliques. Super-aeronaves como o Phantom, MiG 31, Spitfire ou Zero considerados como não assim tão bons quanto isso? Em parte, porque eram excelentes em nichos muito restritos, e quando adaptados a outros papéis ficavam um pouco aquém do esperado.
How Much Things Can Change: Uma visão pessoal da acelaração dos processos de mudança, da parte de alguém que tem sido parte muito ativa desses processos, no que toca à robótica.
From The Anthropocene To The Microbiocene: Como espécie, somos indivíduos de vistas curtas. Há demasiado tempo que a ciência nos avisou que o nosso caminho de desenvolvimento insustentável está a conduzir à ruína planetária. Mas isso é a longo prazo, apesar de já sentirmos alguns desses efeitos. Por outro lado, a Covid-19 veio recordar-nos, como um espancamento, que não estamos acima da natureza, e que basta um mero vírus para paralisar as redes da nossa sociedade.
I’m a Nurse in New York. Teachers Should Do Their Jobs, Just Like I Did.: O artigo é um bocado radical, mas espelha algumas das minhas perceções como professor. Também não me agrada o risco das aulas presenciais em Setembro, mas não deixo de sentir que a minha profissão também tem um elemento de dever de serviço público. O que alarma, mesmo, não é reiniciar aulas presenciais em setembro. É saber que, por cá, as instruções do ministério da educação violam sistematicamente as boas práticas de prevenção da Covid, porque medidas lógicas como menor número de alunos por turma, turmas desdobradas semanal ou quinzenalmente, com mistura de aulas presenciais e educação â distância, ou medidas ativas de apetrechamento de escolas com algo mais que máscaras e alcool-gel têm custos que o ministério não quer assumir. Por isso, o distanciamento social de 1,5 metros na sala de aula deixa de existir, e em setembro, arrancamos com 25 a 28 alunos por turma numa mesma sala. Isso, não é tranquilizador.
Nurse to Teachers: Suck It Up!: É uma resposta certeira ao pior do artigo anterior. E sublinha o que eu já sublinhei – o problema não está em eventuais covardias, corporativismos ou falta de sentido de dever, mas no saber que as condições reais nas escolas são um enorme fator de risco para rebentamento de surtos, e que as autoridades educativas pouco fazem para prevenir isso.
The Natural World Can Teach Us a Lot About the Ancient Art of Bulls**t: O dom da treta não é exclusivo aos humanos, como demonstram alguns comportamentos de espécies animais.
Can nuclear war be morally justified?: Resposta rápida: não. Resposta longa, dos traumas dos civis em Hiroxima à loucura da destruição planetária na guerra fria, numa história que ainda não terminou, com a proliferação nuclear em estados-pária.

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