Esta semana, destacamos as obras nomeadas aos Prémios Adamastor do Fórum Fantástico 2020, a invasão de Carcavelos por marcianos, e a eterna polémica do valor da leitura dos clássicos da ficção científica. Em tecnologia, mostramos um robot de telepresença DIY, um projeto de aeronave comercial supersónica, e um intrigante protótipo de tinta digital com uma forma inovadora. Recordamos o aniversário de Hiroxima com reflexões sobre o nuclear e aquele que é provavelmente a mais arrepiante reportagem sobre o tema, recolhendo em 1946 os depoimentos de seis sobreviventes do primeiro ataque atómico da história. Para além destas, há outras leituras a descobrir nas Capturas desta semana.

Ficção Científica e Cultura Pop

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A 1971 Galactus black light greeting card, from art by Jack Kirby: Mensagens motivacionais. Com devoradores de planetas.

The demise of the second-hand bookshop: Uma elegia aos alfarrabistas, esses locais onde podemos encontrar boas surpresas, livros esquecidos, ou aqueles que julgávamos perdidos, e até mesmo raridades ou preciosidades. É de notar que por cá, com a crise da Troika, houve um imenso crescimento neste tipo de negócios (nalguns casos, literalmente em vão de escada). Algumas das mais interessantes livrarias que conheço puxam mais ao alfarrabista que à tradicional livraria cheia de novidades e pouco mais. De tal forma que algumas das livrarias clássicas – pensem na Barata, na Avenida de Roma, ou naquela Ler Devagar da LX Factory (mais conhecida por causa dos turistas que fotografam a bicicleta pendurada no teto), que começaram a incluir livros em segunda mão como parte da sua oferta.

Robert McCall, “Mars Expedition”: É um antigo sonho.

O dia em que Portugal foi invadido por marcianos: Recordar a emissão radiofónica de A Guerra dos Mundos, criada no final dos anos 50 pelo radialista Matos Maia. Que, seguindo a mesma estética da versão de Welles, teve por cá impacto similar, com pânico nas ruas, ordens para encerrar a emissão, e uma estadia nos calabouços da PIDE para o radialista “aprender a não brincar com coisas sérias”. Para além do recordar do marco da ficção científica, bem como da história da rádio, há aqui uma lição sobre o impacto dos media. O problema que temos hoje com enviesamentos, falsa informação online, deepfakes e tudo o resto? Não é novo. Nos anos 50, bastou a adaptação de uma obra de ficção para levar o pânico a populações e forças de segurança. Em foco está a nossa incapacidade de reagir de forma crítica ao que vemos, lemos ou ouvimos. Isso é tão verdade hoje, no mundo digital, como nos velhos tempos analógicos da rádio, ou nos mais antigos tempos da oralidade.

Invasão dos Marcianos, Matos Maia (1958): Se encontrar um registo audio da emissão é difícil (merecia estar no YouTube, onde pululam projetos de preservação de Old Time Radio e se pode ouvir a versão original de Orson Welles da adaptação da Guerra dos Mundos)

Nove Amanhãs: Uma nova revista de ficção científica brasileira, de leitura gratuita (infelizmente, em PDF).

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Darrell K Sweet’s 1983 cover for Pebble in the Sky, by Isaac Asimov: Capas clássicas.

O rídiculo do niilismo de Sabrina: Apesar dos elogios da crítica, ainda não peguei neste livro. Sempre que o folheio em livrarias fico com uma sensação de que não se enquadra nos meus gostos. O Virtual Illusion leu, e apontou uma série de questões que sublinham que este é mais um exercício de estilo, misturando estéticas de minimalismo pessoal que esteve em voga nos comics indie dos anos 90, e ainda hoje é todo um sub-género. Mas, de acordo com a crítica, pega em premissas brilhantes que aborda de forma estéril. De forma que suspeito que este livro continuará na lista dos “relutância em ler”.

Peter Elson, “Mirkheim”: Visões clássicas.

NOMEADOS – PRÉMIO ADAMASTOR: Devo agradecer à Cristina Alves por me ter poupado trabalho, arrumando as nomeações num post do Rascunhos. O Fórum Fantástico divulgou a lista de nomeados aos Prémios Adamastor, que serão escolhidos em votação durante o evento, em Outubro. Se a covid-19 deixar, claro. Entretanto, mergulhem nas nomeações, são mesmo o melhor que se tem produzido em banda desenhada, conto e literatura fantástica em português.

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Ed Soyka: Foguetões psicadélicos.

João Cerqueira: A Tragédia de Fidel Castro (#leiturtugas): Apesar da apreciação literária não ser das melhores, só a doideira de uma guerra entre Fidel e D. Afonso Henriques (leram bem) deixa a curiosidade bem desperta.

‘Color Out of Space’: Nicolas Cage colisiona con H.P. Lovecraft y el resultado es un inclasificable estallido de fantasía alienígena: Ainda não consegui ver este filme, parcialmente rodado em Sintra, e que tem fama de ser uma excelente homenagem ao horror cósmico de Lovecraft. Simplesmente, não estreou por cá.

Robert McCall: Visões clássicas.

Oh, Christ, Not the Science Fiction Canon Again: Scalzi a ser polémico, apontado que a fixação por certos livros e autores na ficção científica é sobrevalorizada. Ter obras e autores canónicos pode ser uma forma de abafar inovação no género – não por acaso, quem acena mais com a importância dos Grandes Livros são os revisionistas que combatem o que vêem como degeneração trazida pela FC mais militante, que quer abordar questões de género, identidade e multiculturalismo, temas visivelmente ausentes da utopia euro-americana de engenharia da FC clássica. No fundo, a questão tem a ver com a construção de gostos literários, e quem quer conhecer o género a fundo, eventualmente vai parar aos autores icónicos com visão crítica – Asimov é sobrevalorizado, Bradbury um poeta, Clarke incapaz de escapar aos estereótipos, e de Heinlein, nem vale a pena falar. Claro que a FC mais ativista de hoje peca muitas vezes pela virtude de querer mudar o mundo, ou seja, foca-se no lado militante, com histórias que serão futuramente vistas como meramente panfletárias. Mas, por muito que me custe como leitor, esse é um passo necessário na evolução temática do género. Confesso apreciar o cânone, não como bitola imutável a que todo o aspirante a bom escritor tem de emular, mas como ponto de partida para conhecer a evolução temática e estilística da FC.

Gods, Monsters and H.P. Lovecraft’s Uncanny Legacy: Ah, Lovecraft. Urdidor de textos desnecessariamente barrocos, invocador de horrores cósmicos, misógino e xenófobo. E estranhamente cativante. A sua iconografia tornou-se das mais influentes no horror contemporâneo, os guerreiros culturais gostariam de o ver esquecido devido ao seu ideário hoje repelente (bem, na verdade sempre o foi, apenas felizmente evoluímos para um mundo onde deixou de ser socialmente bem aceite). Um pequeno perfil do autor, junto com algumas das suas obras e mais icónicas influências, aproveitando a estreia da série Lovecraft County.

Histórias da Tecnologia

Telepresence Robot Navigates Upgrades: Um projeto DIY interessante para teletrabalho em tempos pandémicos. Se adquirir um robot de telepresença é proibitivo pelos elevados custos, há a alternativa telemóvel e pequenos robots adaptáveis. Como este, que usa pequenos motores, estrutura em cartão, e uma placa dedicada (suspeito que não há de ser muito difícil de replicar em arduino) dentro de uma forma simples.

Tales Of Type: TrueType Vs. PostScript: Uma história sobre tipografia, negócios e economia digital.

NeRF: esta red neuronal recrea monumentos en gráficos 3D a partir de imágenes publicadas en internet por turistas y usuarios: Uma tecnologia muito interessante. Reconstrução tridimensional a partir de fotos díspares de um mesmo local, efetuada por inteligência artificial. Ou, colocando de outra forma, automatizar processos de fotogrametria usando algoritmos de aprendizagem automática.

John von Neumann, el genio que diseñó la arquitectura de nuestros ordenadores, lo hizo hace 75 años, y este es solo uno de sus logros: Da próxima vez que o vosso computador estiver aos pinotes e pensarem “que raio se passa com o meu CPU”, recordem – a culpa é de John von Neumann, o matemático húngaro que definiu aquela que se tornou a arquitetura dos computadores.

The suitcase computer of 2020: Uma piada? Um regressar aos tempos em que os computadores portáteis eram, de facto, tão pesados que eram como malas? Ou um equipamento ultra-especializado, para um segmento restrito de utilizadores que precisam de potência computacional e mobilidade?

Is a successful contact tracing app possible? These countries think so.: Automatizar o rastreamento de contactos está entre o ferramenta muito útil para o combate ao espalhar desenfreado da pandemia e os pesadelos de privacidade. Com alguns cuidados, pode-se atingir pontos de equilíbrio. Outro elemento a considerar é a sua adesão. Para que estas apps sejam eficazes, todos têm de as usar, certo? Nem por isso. Neste combate, todas as vitórias contam, e mesmo que a adesão não seja elevada, ajuda a preservar a saúde daqueles que usam a app. Só isso, como observa um dos criadores da app irlandesa, já é uma vitória.

E Ink shows off a foldable e-reader prototype you can take notes on: Como fã dos dispositivos de tinta eletrónica, fico a salivar com as possibilidades trazidas por esta variante. Podemos começar por maior ecrã, mas também por experiência de leitura mais próxima da forma do livro tradicional.

Boom Hopes to Reignite Supersonic Travel with XB-1: Desde os tempos do Concorde que não há voo supersónico de passageiros. Em parte pelo elevado preço, em parte pelo ruído que provocam. Isso poderá mudar em breve, com projetos da Lockheed e da Boom. Para além de aproveitar a intensa investigação em materiais, motores e voo supersónico que tem sido desenvolvida pela NASA, estas aeronaves estão desenhadas para minimizar o impacto sonoro. Mas não serão para todos, estão pensadas para o nicho de mercado dos executivos.

Floppy Disks Still Used To Update 747 Flight Software: Soa chocante, pensar que atualizações de software em aeronaves ainda dependam de diskettes, um sistema que já se pensava extinto. Na verdade, faz algum sentido. Pertencem ao que se chama de sistemas legacy, antiquados mas funcionais, e cujos custos de substituição são superiores aos de manutenção. Notem que estamos a falar de Boeings 747, não são as aeronaves mais modernas que voam por aí.

News In Small Bytes: Algumas curiosidades sobre a história da computação. Uma especialmente divertida, o sentimento partilhado pelos jornalistas e editores que essa coisa do online nunca os haveria de afectar. Ha.

Todas las etiquetas del HTML con aspecto de tabla periódica de los elementos: Vai um compêndio de etiquetas HTML organizadas como uma tabela periódica?

Google evita la demanda de Genius por mostrar sus letras de canciones en el buscador: Genius no tiene los derechos sobre ellas: Se tudo está disponível a partir do motor de busca, como é que se monetiza (e sustenta, pagando os custos), um site? É algo a pensar nesta notícia sobre um serviço de pesquisa de letras de canções, que viu o seu tráfego cair a pique quando a Google incorporou diretamente os seus conteúdos nos resultados das pesquisas. Não sendo o criador das letras, o serviço não tem muito por onde se virar. Mas esta pequena notícia aponta para a progressiva falta de diversidade quando pequenos nichos explorados por independentes se tornam meras extensões dos serviços globais das stacks.

The Surface Duo, Microsoft’s first-ever Android phone, is $1,400: Estou só a falar disto porque… Android da Microsoft. Tem o seu quê de irónico.

Forma da Modernidade

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How to Meme What You Say: Simples mas poderosos, os memes são uma forma viralizada de comunicação digital que nos permite exprimir sentimentos e emoções… ou apenas fazer shitposting. Ao partilhar memes, estamos a participar de uma conversa global descentralizada.
A city out of time: what do we dream of when we dream of Rome?: A cidade eterna, daqueles monumentos de cortar a respiração, das ruelas apaixonantes. E a cidade disfuncional, assoberbada por turistas, onde os serviços públicos funcionam mal. Viver em Roma poderá não ser a melhor das experiências, mas, Roma é Roma.

What Truths Can You Divine From Instagram Paintings?: Sem exposições para visitar, ou galerias abertas, o que faz um crítico de arte? Este mergulhou nas partilhas dos artistas no Instagram, essa rede social que todos esquecemos que, no seu âmago, vive da partilha de imagens interessantes. Sim, eu sei, fica difícil de perceber isso entre as más fotos dos amigos e a iconografia farsola dos influencers e famosos. Mas se sintonizarem bem o vosso insta, há um mundo de imagens inspiradoras a descobrir.

75 Years Ago Today: The First Operational Combat Nuclear Strike In History: E, felizmente, só se repetiu mais uma vez. Recordar a missão histórica do Enola Gay, mas também da do Bock’s Car, que bombardeou Nagasaki. Um pormenor curioso, que desconhecia: o detonador da segunda bomba atómica auto-ativou-se durante o voo, e se um dos tripulantes não tivesse conseguido resolver o problema, a história seria um pouco diferente.

Hiroshima: Se há texto a ler sobre o bombardeamento atómico de Hiroshima, é este. Escrito em 1946, é um relato horrendo do ponto de vista de seis sobreviventes. Lê-lo, ainda hoje, ou relê-lo, provoca arrepios. Artigo seminal sobre a história, em acesso livre na New Yorker.

ONE TYPE OF ART CAN HELP YOU SEE THE BIGGER PICTURE IN LIFE – STUDY: A ligação entre neurociências e arte abstrata. O desafio mental de contemplar obras de arte não representativa altera a nossa forma de pensar.

We ask a real TopGun instructor to rate the movie’s realism and talk F-14 Tomcats: Ao contrário do que se pensa, não demole o filme; aliás, trabalhou nas cenas aéreas e como consultor na montagem cinematográfica. Aquelas cenas fantásticas de voo tiveram intervenção de verdadeiros Top Gun.

The nuclear mistakes that nearly caused World War Three: Versão resumida: não só armas nucleares são má ideia, como políticas paranóicas de uso, sem tempo útil de decisão ou aferição de dados errados, aumentam a periculosidade destas armas. Ao longo da história da guerra fria, foram vários os momentos que poderia ter originado catástrofes nucleares. Alguns expectáveis, como bugs e chips avariados. Outros estranhos, como ursos confundidos com espiões. E outros arrepiantes, como líderes mundiais alcoolizados ou sem estar na posse das suas faculdades mentais.

Los cinco mejores rincones de Portugal para sentarse a llorar: Sugestões para um turismo… diferente. Vai dose de melancolia, com acompanhamento de depressão temperada por tristeza com polvilhos de sentimento de abandono?

Exponential growth bias: The numerical error behind Covid-19: Com a pandemia, e não só. Pensamos de forma linear, e é-nos difícil intuir o poder do crescimento exponencial.

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