realidade

Os indícios que apontam para a possibilidade de vida na atmosfera venusiana são o tópico mais quente desta semana. Mas na tecnologia ainda se fala de algoritmos que criam rostos fotorealistas, ou de comboios que usam o Windows 95. Fala-se também dos caminhos do surrealismo, do cérebro de astronautas ou da realidade dos aviões incomuns. Descobrimos a bizarra relação entre Stanislaw Lem e P.K. Dick, o cinema de Christopher Nolan e o mais recente livro de Filipe Melo e Juan Cavia. Mais leituras vos aguardam nas Capturas da semana.

Ficção Científica e Cultura Pop

Ralph McQuarrie, 1978: Pausa, antes da carreira para Kessel.

On Lem, Philip K. Dick and the FBI: Uma história muito conturbada da realidade das relações entre Stanislaw Lem e um PK Dick a passar por uma das suas fases alucinatórias, que culminou com uma denúncia deste ao FBI, alegando que Lem não era um escritor mas sim uma sociedade de espioões… se bem que o mais interessante do artigo são as histórias sobre a política editorial polaca. Como as editoras não podiam pagar a autores estrangeiros em dólares, estes tinham de ir à Polónia receber rendimentos na moeda local, e depois gastá-los lá. Devo dizer que fiquei curioso sobre qual escritor sul-americano estoirou todos os seus ganhos numa noite de deboche (de tal forma que teve de pedir dinheiro emprestado para os restantes dias que passou no país).

Os puzzles de Christopher Nolan: O mais recente filme deste realizador parece ser tortuoso para o cérebro. Algo que é um padrão na sua obra, embora muitas vezes se deixe ficar pelo exercício de estilo.

The Funko We Deserve, and the One We Need Right Now: Ser geek assumido nem sempre implica gostar de todos os símbolos desta cultura, e confesso que abomino funko pops. É coisa pessoal, sempre detestei figuras com cabeça desmesurada. Mas para este funko, abro uma exceção.

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Philip K Dick covers, from the Internet Archive: Capas surreais para um autor que transpôs a fronteira entre a FC e a realidade weird.

La mala fama del ‘Dune’ de David Lynch es inmerecida: revisitamos uno de los grandes fracasos comerciales de la ciencia-ficción de los 80: Confesso que nisto, sou suspeito. Sou fã do Dune original, da colisão entre as bizarrias de David Lynch e Ficção Científica. A estranheza do filme, que tanta confusão faz aos fãs do género, é precisamente um dos aspeto que me fascina. Admiro esse filme, o atrevimento de pegar numa space opera épica e torná-la em algo surreal. Mesmo sabendo que a visão original de Lynch foi diluída na versão que chegou aos cinemas. Agora que o filme irá ser revisto por Christopher Nolan (o trailer que foi vazado não é muito prometedor), renasce o interesse no clássico mal amado.

Fritz Leiber: Encontro em Lankhmar: Confesso que Leiber é daqueles autores clássicos que não me recordo de ter lido. Uma falha, claro, mesmo que se partilhe a postura crítica face à ficção pulp que o Candeias coloca nesta sua recensão.

Bob Eggleton: Dos sonhos de viver no espaço.

Balada para Sophie: Pedro Cleto analisa o mais recente livro de Filipe Melo e Juan Cavia, que parece ser especialmente promissor.

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Tim Hildebrandt: Um pouco de fantasia, um pouco de ficção científica.

Supernatural Star Jared Padalecki: “My Last Day with Sam Winchester”: Una longa série que chega ao fim. Recordo ben as suas primeiras temporadas, com a sua estrutura clássica de conto de terror e road movie. O par de caçadores de monstros e outras criaturas que arrepiam a noite era uma excelente premissa. Eram episódios refrescantes e surpreendentes, a fazer reviver o espírito clássico do terror. Entretanto, foi resvalando para uma bizantina telenovela, com conspirações angélicas, contínuas ameaças de destruição do mundo, guerras infernais e, francamente, demasiados ingredientes. Tantos, que na realidade o espírito original se perdeu e a série passou a ser muito desinteressante. Só duas coisas mantiveram sempre o mesmo espírito: a fantástica banda sonora a recordar o rock clássico dos anos 70, e o icónico carro Chevy Impala. A série termina, mas confesso que só tenho saudades das primeiras temporadas.

Tecnologia e Realidade

Grumman Magazine, Jan 1975: Recordar quem construiu os Space Shuttle.
Welcome to the Next Level of Bullshit – Issue 89: The Dark Side: Se a informação que circula online já de si contém imensa desinformação, ferramentas de Inteligência Artificial como a GPT-3 podem ajudar a intensificar o nível de tretologia que por aí circula. Apreciei o detalhe de os textos tipo ensaio gerados pelo algoritmo poderem passar por trabalhos universitários de nível iniciação.
AUTOVON: A Phone System Fit for the Military: Quando o telefone fixo era o meio de comunicação essencial, os militares americanos construíram uma rede própria, cujo uso durou até à explosão da Internet.
When will we see ordinary people going into space?: Bem, suspeito que se manterá como um distante sonho durante bastante tempo. O acesso ao espaço é caro, com riscos, requer treino e capacidade física.
DeepFaceDrawing: Deep Generation of Face Images from Sketches: Um divertido algoritmo, que gera imagens fotorealistas a partir de rascunhos de rostos.

Why Goodreads is bad for books: Bem, sou utilizador do Goodreads, e confesso que nunca me tinha apercebido da rede ser assim tão má. Talvez porque só a uso para rastrear e registar leituras, não participo no lado mais social dos fóruns e discussões (onde imagino que, como em todos os espaços online, muita porcaria se passe). Os dias são preenchidos e há mais redes sociais onde interagir do que tempo livre disponível. E, de facto, se há algo que caracteriza o Goodreads é a sua lenta evolução (para ser simpático e não dizer estagnação). Mas a sensação que retiro da leitura é que quem o critica de forma tão veemente está, na realidade, interessado em que a rede social dos bibliófilos se transforme numa livraria digital.

Windows 95 aún sigue usándose: estos trenes en Suecia no podrían funcionar sin él, pero hay más ejemplos: Bem vindos ao maravilhoso mundo dos sistemas legacy. Aqueles que funcionam, e bem, mas dependentes de hardware ou software obsoleto nos dias de hoje. Que, no entanto, substituir é tarefa demasiado complexa ou cara. Já passei por isso. Demorei anos a migrar a minha escola de XP para windows 7 (onde estou empanado porque o ministério da educação não tem uma política coerente de atualização de material informático, mas isso são outras conversas), precisamente porque alguns computadores críticos para os serviços administrativos eram mesmo necessários. São sistemas ao mesmo tempo importantes, mas de nicho tão reduzido que não justificam investimentos em mudança. Estes comboios suecos que funcionam com o Windows95 são apenas mais um exemplo.

O Dilema das Redes Sociais ou a sociedade da pós-realidade?: Uma análise às questões levantadas pelas redes sociais como principais meios de mediação do real para as pessoas. Interesses privados, enviesamentos, bolhas de informação, e a fragmentação extrema dos espaços de opinião.

Team Digitally Recreating Venice To Preserve It: Um projeto fascinante, que cruza digitalização 3D com LIDAR e fotogrametria para preservar digitalmente a arquitectura de Veneza. A cidade está cada vez mais em risco de submersão, e este projeto procura preservar os seus vestígios.

Your Phone Wasn’t Built for the Apocalypse: As imagens que nos chegam dos espaços urbanos californianos sob o manto de fumo e céu avermelhado provocado pelos incêndios florestais são assustadoras. Mas não correspondem exactamente à realidade. Isto porque as câmaras dos telemóveis funcionam com fotografia computacional e não óptica. O software compensa a captação luminosa para valores optimizados, mas sem calibração para as condições específicas dos incêndios, as imagens geradas são automaticamente optimizadas como se fossem tiradas em condições normais.

Going Postal: Caveat lector, este é daqueles artigos a demolir as redes sociais. Cheio de lamentos sobre a estupidez humana em constante evidência, os enviesamentos, abusos e etc.. Não são argumentos novos, e se em parte tem razão, as redes sociais têm-nos trazido problemas inesperados, por outro lado têm sido instrumentos úteis de partilha de ideias e criação de redes de contacto.

Qué es el efecto ELIZA, o por qué nos sorprende tanto leer un artículo “escrito” por una inteligencia artificial como GPT-3: Confesso, apesar de todo o interesse que tenho por Inteligência Artificial, não me dei ao trabalho de ler o ensiao gerado pelo GPT-3 recentemente publicado no jornal The Guardian. Em parte por saber que são palavras profundamente desprovidas de significado (o algoritmo gera texto com operações estatísticas complexas, mas na realidade não reflete nas ideias). Por ter achado a publicação uma atitude demasiado clikbaity de um dos grandes jornais de referência globais. E, também, porque o efeito Eliza não me é desconhecido – a nossa propensão para atribuir significado ao aleatório.

‘Impossible Objects’ That Reveal a Hidden Power: Das relações entre realidade, tecnologia, fotografia e vigilância institucional, que não se limitem às correntes preocupações com algoritmos de reconhecimento facial.

How Algorithms Are Changing What We Read Online: Uma reflexão sobre o pernicioso domínio de algoritmos de análise de leitura sobre o jornalismo, um sistema de retroalimentação constante que deixa de fora demasiados textos interessantes. Empobrece o jornalismo, a intelectualidade, o discurso cultural. Mas é a forma dos jornais tradicionais, esmagados pelo online, tentarem sobreviver no digital.

Learn About Historic Firearm Design With A 3D Printer: Há não tanto tempo atrás quanto isso, falar de impressão 3D trazia sempre atrás o medo de imprimir armas. Felizmente, a tecnologia normalizou-se de tal forma que quando surgem projetos para imprimir réplocas funcionas de armas (mas incapazes de disparar, claro), já ninguém vem com o discurso do iminente colapso da civilização por causa das armas impressas em 3D.

The subtle ways that ‘clicktivism’ shapes the world: Até podemos pensar que a acção apenas online não muda o mundo. Mas se repararmos na polarização de opiniões, no alastrar de informação falsa com consequências bem reais, percebemos que de facto o online modifica o real. Não é o clicktivismo otimista dos anos 90. Infelizmente, tem ajudado a dar visibilidade a algumas das piores pulsões humanas.

La Justicia Europea tumba las tarifas que “no consumen gigas” con ciertos servicios: así nos afecta la primera sentencia sobre la neutralidad de la red: Estão a ver aquelas tarifas de dados móveis que vos dão um saldo, mas permitem navegar de forma ilimitada nalgumas aplicações específicas? Desde sempre que foi apontado que violam a regra da neutralidade dos dados na internet (também conhecida como todos os bits são igualmente importantes). Agora, o tribunal europeu confirma que, de facto, a neutralidade da internet é um pilar fundamental da rede.

Vinyl Sales Beat CDs While Still Managing to Lose: Mas antes que começem a salivar sobre o regresso do vinil, notem que na verdade, é um indicador da iminente extinção do CD como formato audio. Streaming para todos, vinil para os apreciadores do objeto musical.

Boeing Has Completed Engine Run on First Unmanned Loyal Wingman Aircraft For Australia: O drone de combate autónomo desenvolvido pela Boeing para a Austrália dá mais um passo na realidade. Agora, está a fazer testes estáticos de motor.

Microsoft’s underwater server experiment resurfaces after two years: Afundar parques de servidores parece uma ideia bizarra, mas os testes da Microsoft revelarm que, afinal, é uma ideia funcional. Na realidade, os parques de servidores submersos não só se mostraram menos predispostos a avarias, como têm menos consumo de energia para arrefecimento.

Flyby #9: Vida em Vénus?: Note-se que os indícios de fosfeno poderão ter origem química, em processos que ainda desconhecemos. O que significa que a necessidade de explorar o planeta é agora ainda maior.

Gas spotted in Venus’s clouds could be a sign of alien life: É uma grande notícia, e indícios de vida extraterrestre seriam uma enorme descoberta científica. Mas notem que os autores apontam a existência de vida como a explicação menos improvável para a presença de elevadas quantidades de fosfeno na atmosfera superior venusiana. Poderá haver algum processo químico ainda não conhecido que seja responsável por estas medições (os conhecidos não se aplicam ao planeta, ou não explicam as quantidades). Suponho que, na realidade, só há uma maneira de se ter a certeza: ir lá, enviando sondas à estrela da manhã.

Modernidade

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The weirdest aeroplane you’ve never heard of, the utterly batshit Plymouth A-A-2004: Uma aeronave com tambores no lugar das asas, pensados para explorar um efeito físico obscuro. O que é que poderia correr mal?

Blade Runner 2049: San Francisco: Não tem muita piada, mas de facto as imagens reais da cidade de S. Francisco sob os céus vermelhos dos fogos florestais parecem-se com a estética do filme.

According to Scans, Astronaut Brains “Reorganize” During Space Travel: Mais um dos efeitos inesperados da gravidade zero sobre a fisiologia humana. Estudos feitos com astronautas russos mostram que o seu cérebro mudou de posição durante os voos espaciais.

Works of Fine Art (feat. The Simpsons): Do estranho poder cultural de uma série em emissão contínua há mais de vinte anos, que sempre manteve o seu status crítico (embora progressivamente suavizado). Um curioso uso para as suas personagens icónicas – fazer elegantes piadas sobre arte.

10 cancelled US fighter aircraft: Dez aeronaves que poderiam ter sido icónicas, mas não passaram dos protótipos.

Where Is Surrealism Going in These Strange-and-Uncertain Times?: O surrealismo é daqueles movimentos artísticos cujo momento já passou,mas nem por isso deixa de ser uma estética influente. Agora mais decorativa do que questionadora do real, mas sempre surpreendente.

O Verdadeiro Criador de Tudo (2020): O papel fundamental do cérebro, como forma de perceber, compreender e interagir no mundo físico.

O Presidente, o ministro e a professora no início do ano letivo: Normalmente sou discreto no que toca à minha profissão (ok, certo, não é segredo que sou professor, mas não tenho o hábito de dizer exatamente onde). Este texto tocou-me especialmente. Não só por ser certeiro – aponta de forma brilhante a incongruência dos discursos políticos sobre a reabertura das escolas, cheios de luminosas declarações sobre a segurança dos alunos, e a realidade das escolas. Onde, porque a tutela recusa desdobramento de turmas, é impossível cumprir o distanciamento social entre alunos. Ou, sequer, redução da carga horária das disciplinas, o que ajuda a explicar os horários com as crianças encafuadas durante seis horas na mesma sala, com horários de intervalo reduzidos. Fazemos o que podemos, mas algumas medidas lógicas são-nos impossibilitadas. A realidade específica referida neste artigo, conheço-a bem. Também sei que não é o modelo de escola que defendemos ou queremos, é uma medida extraordinária pensada face a inúmeras condicionantes impossíveis, com esperança que tudo corra pelo melhor, mas preparados para o pior.

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