Esta semana, discute-se a ideia de cultura geek como artificialismo de markeitng, fala-se de séries de ficção científica e do Gundam andarilho japonês. Na tecnologia, descobre-se a matemática da fuga aos paradoxos temporais, olha-se para os perigos da automatização para a democracia, e sorri-se com o fim, finalmente, do Farmville. Ainda se fala da longevidade do nosso amor pelo melhor amigo do homem, dos paralelos históricos das teorias da conspiração e de projetos artísticos em realidade virtual. Estas e outras leituras, nas Capturas da semana.

Ficção Científica e Cultura Popular

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Horizons Aflame: Céus e chamas.

Las 21 mejores series de ciencia-ficción: Vai uma listinha dedicada às séries de televisão de ficção científica? A lista fica logo validada por incluir Firefly (browncoats rulam!), cruzando clássicos do calibre de Stargate SG-1 (O SciFi channel costuma fazer regressar regularmente a série aos ecrãs) ou The Twilight Zone (vejam o original, não percam tempo com as temporadas mais recentes), com obras com o brilhantismo de Black Mirror. De parte ficou Space: Above and Beyond, uma esquecida série de FC militarista muito bem concebida.

A News-Reel Camera Man In Action: De fazer inveja a Dziga Vertov?

How corporate marketing created the Geek identity: Será a cultura Geek um constructo artificial, congeminado dos departamentos de marketing das detentoras de propriedade intelectual para criar mercados? Pessoalmente, talvez este seja mais um problema do ovo e da galinha. Damian Walters aponta, e muito bem, a comercialização excessiva e o tratamento das comunidades de fãs do fantástico como um target de marketing para lucro fácil. Mas a questão talvez seja mais de apropriação do que gestação. O fandom independente antecede o crescimento da comercialização maciça. E, de certa forma, como Walters deve saber muito bem, desde o início que a ficção científica foi um género comercial, com um ecossistema de autores sustentado pelas revistas pulp. Não creio que o corrente modismo geek seja o resultado direto de manipulações culturais, mas sim do aproveitamento dos gostos de um grupo, transformado em mais uma segmentação de consumidores. E esse aproveitamento tem sido feito pelo menor denominador comum, apostando na iconografia e bonecada em detrimento das bases culturais que deram origem aos ícones. Notem que não haveria universo cinematográfico Marvel sem os comics; não há os (irritantes, insuportáveis) Funko Pops sem as personagens literárias e cinematográficas que representam. Para mim, os Funko Pops são a tradução direta da apropriação rapace da cultura geek: é o boneco pelo boneco, disforme, interminavelmente colecionável. Quando visito uma loja dedicada que ostenta com orgulho a cada vez mais inevitável parede de Funk Pops, já sei que salvo raras excepções, as prateleiras não têm aquilo que alimenta verdadeiramente a cultura geek – os livros, comics, mangá, romances que formam o substrato da cultura de género (como em genre, e não gender). Mas numa coisa concordo em absoluto com Damien Walters: uma série como Big Bang Theory era um verdadeiro insulto aos geeks, que se comprazia no ridicularizar da superficialidade da iconografia dos comportamentos culturais, enquanto afirmava homenageá-los. Pois, a pensar assim não admira que em certos círculos tenha ganho a alcunha de Sheldon.

Via @WeAreTheMutants: Ah, nostalgia dos tempos em que os comics que comprava na Tema ou na Bertrand, ou entre as páginas da Analog e da Asimov, se encontrava publicidade a estes clubes de compra de livros de fantasia e sci-fi. Confesso que sempre tive uma vaga curiosidade com estes títulos.

Você Ainda Pode Senti-la Puxar…: O final do clássico Carrie, de Brian de Palma, parece ser uma antítese do filme, com o recurso a uma das mais clássicas tropes do horror, a mão cadavérica que sai da campa. Ou talvez não, como mostra esta análise do Lorde Velho. Talvez seja um recordar que a normalidade tem um preço.

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High Speed Fairchild Amphibian: Visões retro-high tech.

El Gundam japonés a tamaño real da sus primeros pasos: así se mueve un robot mecha de 20 metros: Porque Japão, eis porquê. A réplica gigante de um Gundam já mexe, e estão a testar a sua deslocação.

Jakub Erol (1941 – 2018) Polish Film Posters: Estes cartazes polacos de cinema de terror são, em muitos casos, mais surreais e assustadores do que os filmes em si.

Manchu: É uma espécie de horizonte de acontecimentos para naves espaciais.

INTELLIGENCE, ARTIFICIAL AND HUMAN: EIGHT SCIENCE FICTION TALES BY JAPANESE AUTHORS: Ultimamente as minhas leituras de FC andam mais pela space opera (expressão de necessidade inconsciente de escapismo, talvez), mas a Cristina Alves vem recordar que se a tecnologia contemporânea, com a robótica e inteligência artificial, parecem ter ultrapassado a Ficção Científica, esta não deixa de ser uma excelente ferramenta para analisar impactos tecnológicos a curto e médio prazo.

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György Kemény’s Fahrenheit 451 poster, 1969: Brabdury em modo psicadélico.

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An Episode in the History of Electro-LUXurient Parisian Dumbwaiters (1913): Olhar para o futurismo do passado é uma excelente forma de perceber como irão envelhecer as nossas visões contemporâneas do futuro. Spoilers: mal, muito mal. Este é um caso típico. Quando a eletricidade era uma tecnologia de ponta, imaginava-se o seu poder transformativo em inúmeras áreas. Como a hotelaria, com esta visão de um hotel onde os circuitos elétricos substituiriam os empregados. Soa familiar, não soa? O paralelo com as nossas visões sobre robótica e inteligência artificial é nítido.
Hitting the Books: The invisible threat that every ISS astronaut fears: A exploração espacial já nos parece rotineira, mas na verdade depende de inúmeros sistemas críticos. Os astronautas estão em órbita, dependentes e sempre atentos para reagir caso algo falhe. E aqui, ficamos a saber qual o pior perigo para a ISS: uma fuga do líquido de refrigeração baseado em amoníaco dos módulos americanos. Que, caso ocorra, significa morte certa. A curiosidade sobre este livro onde uma astronauta conta as suas experiências ficou desperta.

How the Artemis moon mission could help get us to Mars: As missões Artemis como base de conhecimento sobre a capacidade de explorar marte, especialmente no que toca ao desenvolvimento de habitats e fisiologia. Mas o artigo é sóbrio e reconhece que, como em tantos outros projetos ambiciosos da NASA, isto só acontecerá se o Artemis realmente acontecer.

Made in Space to send first ceramic manufacturing facility to the ISS: Começa a ser uma pergunta pertinente, saber se a ISS tem espaço para tanta impressora 3D. A MadeInSpace acabou de enviar para lá mais uma, baseada em tecnologia SLS para impressão em cerâmica. Entretanto, na Europa, os projetos funcionais de impressoras 3D para o espaço (que contam com tecnologia portuguesa) devem estar a ser alegremente discutidos em gabinetes e apresentações, cheios de referências orgulhosas a nós, europeus, também conseguimos desenvolver esta tecnologia. Só não a colocamos na ISS… (porquê? desconheço).

Our Consumption Of Music Is Largely Virtual Right Now. Is This A Threat?: A nossa relação com a música é profundamente humana. Não chega ouvir nas múltiplas plataformas hoje disponíveis. A experiência ao vivo, de comunhão do gosto musical com outros fãs, da presença dos músicos, é um elemento fundamental do gosto profundo pela música. É a diferença entre quem ouve para se entreter e ser melómano. Algo que, com a pandemia e as regras de distanciamento social, parece estar em perigo.

Los lugares más insólitos donde se ha ejecutado ‘Doom’: cajeros, tests de embarazo, robots de cocina, osciloscopios o ‘Minecraft’: Se tem ecrã, corre Doom, tem sido um lema que inspira hackers e makers. Aqui podem ver uma lista dos dispositivos mais insólitos que se mostraram capazes de correr este jogo clássico.

It’s Possible To Travel Back In Time Without Changing The Present, Shows Breakthrough Math Modeling By Australian Student: Ai credo, que de repente toda uma vertente da ficção científica fica em perigo – as histórias sobre os efeitos-paradoxo das viagens no tempo. Este modelo matemático mostra que ir ao passado e alterá-lo tem como efeito possível a continuidade histórica. Exemplo clássico, se se ir ao passado para assassinar Hitler cria-se um paradoxo, porque se o ditador não existisse não seria necessário ir ao passado para o asassinar, e assim sendo não seria assassinado e tornar-se ia o tirano que foi, tornando-se necessário… pronto, já perceberam, é um laço interminável. Esta teoria resolve a coisa de forma elegante, postulando que se um evento histórico é alterado, surge outro similar. Pode parecer novidade, mas já foi pensado pelos escritores de ficção científica que se comprazem com histórias sobre a fluidez temporal.
These weird, unsettling photos show that AI is getting smarter: Se podemos treinar o GPT-3 para gerar textos, e porque não fazê-lo para gerar imagens a partir de uma descrição? O resultado é forma visual do algoritmo interpretar em fotografia a nossa descrição textual.
The Latest Music Piracy: Stream-Ripping: Confesso que até já me tinha apercebido desta tendência, mas não a sabia tão generalizada. Stream-ripping é sacar a música dos serviços online. E perguntam-se, porquê, nesta era de conectividade constante? Bem, claro, boa parte é só pelo gozo de piratear, indsicriminadamente. Mas para quem vive em zonas de conectividade reduzida, esta pode ser a única forma de aceder aos seus artistas favoritos. Notem que não estou com isto a defender a pirataria, apenas a apontar que a ideia de conectividade constante ainda não chega a todos.
How a Germany-China Alliance Is Pushing Maglev Technology Full Steam Ahead: Tecnologia alemã e carruagens chinesas. Uma parceria entre empresas destes paises está a desenvolover soluções de comboios suburbanos maglev.
Scientists find evidence of multiple underground lakes on Mars: De tez escura e olhos dourados. Foi-me impossível não pensar no conto de Ray Bradbury ao ler sobre a elevada probabilidade de lagos subterrâneos marcianos. Se bem que estes lagos serão mais solo empapado do que os canais por onde fluíam as águas, nos velhos sonhos marcianos.
How democracies can claim back power in the digital world: Dos perigos de automatizar, ou de procurar soluções tecnológicas desenvolvidas por privados para resolver problemas públicos. Nada de errado com isso per se, mas no meio de tantas soluções técnicas para problemas sociais há uma vertente que fica esquecida: os privados não têm as obrigações de transparência e equidade que o setor público, por inerência, tem de ter. Junte-se a isso uma parte crescente deste tipo de soluções tecnológicas vir de países que são paradigmas do autoritarismo, e temos um perigo real para a democracia. Enquanto defendemos o sistema político, ajustamos a nossa vida aos diktats de sistemas tecnológicos, aceitando os constrangimentos como parte essencial da solução tecnológica. Ou seja, prezamos a nossa liberdade, mas rotinamos a aceitação de constrangimentos à liberdade que noutros contextos seriam considerados inaceitáveis. Novamente, o problema não está nestes constrangimentos. Sabemos que liberdade pura é uma impossibilidade, que para vivermos em sociedade temos de ter equilíbrio. O problema está na falta de transparência e regulação das soluções tecnológicas, muitas vezes ocultas pela opacidade das regras comerciais: “Why should we care? Because decisions that companies make about digital systems may not adhere to essential democratic principles such as freedom of choice, fair competition, nondiscrimination, justice, and accountability. Unintended consequences of technological processes, wrong decisions, or business-driven designs could create serious risks for public safety and national security. And power that is not subject to systematic checks and balances is at odds with the founding principles of most democracies. Today, technology regulation is often characterized as a three-way contest between the state-led systems in China and Russia, the market-driven one in the United States, and a values-based vision in Europe. The reality, however, is that there are only two dominant systems of technology governance: the privatized one described above, which applies in the entire democratic world, and an authoritarian one.
When You Say One Thing but Mean Your Motherboard: Poderemos automatizar a psicanálise? Há sistemas, complexos, que permitem analisar as respostas humanas e ajudar em decisões terapêuticas. Mas a maioria destas aplicações de tecnologia de psicologia automática baseiam-se no modelo ELIZA – ou perguntas que invertem as respostas dos utilizadores, ou sequências restritas de ações. A ironia é que o ELIZA foi criado nos anos 60 precisamente para ironizar a ideia que um computador poderia ser um substituto de uma conversa humana. Acho que poucos percebem a piada, porque o ELIZA legou-nos uma certa ideia de espírito da máquina, um sentimento que estamos, realmente, a conversar com uma entidade consciente quando na verdade o programa está só a seguir condições pré-programadas. Esta falsa noção de espírito da máquina pode tornar-se perigosa.
The original FarmVille on Facebook is shutting down at the end of the year: O fim de uma era. Fui daqueles que, durante um período de tempo superior ao que me seria confortável admitir, esteve viciado neste jogo das quintas virtuais. Eventualmente passou-me o gosto. Mas ainda hoje, anos após o pico de popularidade que tornou, durante alguns meses, uma minúscula empresa de desenvolvimento de jogos uma das mais valiosas do mundo, o jogo continua a ser utilizado. Mas o fim está anunciado, com a aproximação da data em que o Flash, a tecnologia de base deste jogo (e de tantos outros, agora só acessíveis por emulação) será definitivamente descontinuada.
Como foi fazer uma revista usando apenas software livre: Quem usa software livre, atrevendo-se a ir contra a dominância inquestionada dos softwares comerciais, passa por isso. O editor do Shifter fala de como conseguiu criar uma edição em papel, fugindo às ferramentas comerciais e usando apenas tecnologia de software livre em todo o processo.

Modernidade

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THE ENTROPY GARDENS: Um projeto artístico de realidade virtual imersiva, que nos mergulha num jardim generativo afetado por entropia.
An ex-psychiatrist explains how to tame a troll: Não é um mau conselho, especialmente nestes tempos em que as discussões online raramente têm meio termo e estão sempre polarizadas. No entanto, será que temos tempo para discutir tranquilamente com idiotas? É que é precisa muita paciência para usar este método assertivo de acalmar trolls.
Bill Gates: The Pandemic Has Erased Years of Progress: E não ajudou estar a acontecer quando grande parte das lideranças globais oscila entre a eficácia duvidosa da decisão por comité (caso europeu), o populismo asinino (é preciso dizer? Presidèncias americana e brasileira, bem como o governo britânico, são o exemplo máximo disso), ou o autoritarismo repressivo. O lado positivo é que, se as lições forem aprendidas, estaremos melhor preparados para enfrentar a próxima pandemia global. É de notar que se a política global parece mergulhada na infantilidade, as instituições científicas náo seguem este caminho. Outro pormenor animador: se a pandemia está a causar devastação económica e social, o nível de progresso tecnológico que já atingimos está a ser um factor mitigador de ainda maior devastação. Gates observa e muito bem, imaginem esta pandemia no final do século XX, sem redes para nos manter ligados (e parte da economia a funcionar), sem os instrumentos médicos e científicos de que dispomos hoje.
8,400-year-old dog burial found in Sweden: Há quanto tempo é que o melhor amigo do homem é, bem, o mais acarinhado e mimado amigo do homem? Muito tempo, como demonstra esta sepultura canina pré-histórica. Que nos mostra outra coisa, a transversalidade dos sentimentos humanos de carinho através de milénios. Não é difícil, especialmente para quem gosta muito de cães (sou culpado, admito), sentir empatia com o sentimento daqueles que, há mais de oito mil anos, lamentaram a morte do seu cão.
On Q Anon and Antisemitism: Precisamos de mais historiadores destes. Qual a relação entre o anti-semitismo da idade média e a parvoíce das conspirações QAnon? Essencialmente, a crença nas façanhas obscuras de minorias que se comprazem em torturar e oprimir, um gosto por pormenores de violência escabrosa e irrealista. E, como nota o historiador, um paralelo imbatível: a vida em sociedades de profunda desigualdade, em que a crença nas supostas conspirações que oprimem as pessoas é uma forma de desviar atenção das reais causas da desigualdade.
Arménia e Azerbaijão ao microscópio. Seis perguntas e respostas sobre o conflito: Uma análise profunda ao mais recente conflito militar nas zonas longínquas, mas de enorme importância estratégica, da ásia central. Verão resumida: os fantasmas passados da história voltam sempre para nos assombrar.
Are we living at the ‘hinge of history’?: Se todos os dias estamos a fazer viragens no percurso histórico, há épocas em que essas viragens são mais profundas.
Arte Urbana de Marvila: Confesso que as ruas de Marvila não são dos bairros lisboetas onde me sinto mais tranquilo a passear, mas estes projetos de arte urbana fazem parte dos esforços de gestão desta zona.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.