Estamos a chegar àquela altura onde é habitual fazerem-se balanços anuais. Escolher acontecimentos, filmes, eventos, imagens definidoras, é o normal nestas alturas em que se procura destacar os pontos marcantes de mais um ano que se desvanece. As leituras não são exceção. Hoje, destacamos alguns dos livros mais intrigantes que lemos este ano, naqueles domínios mais queridos à mente de enxame Bit2Geek: Ficção Científica, Banda Desenhada e Não Ficção ligada à ciência e tecnologia.

2020: O Ano do Tempo para os Livros

Este foi um bom ano para se ter tempo para ler, pelas piores razões. Entre confinamentos e restrições ao livre movimento trazidos pela pandemia, estivemos, e ainda estamos, recatados nos nossos lares. São boas condições para leitura, exceto, claro, se o teletrabalho se revelou avassalador, ou se a angústia pandémica nos afetou psicologicamente. Ou, nestes dias digitais, se o canto das sereias das redes sociais não nos cativou, ou optámos por maratonas de séries em streaming para passar o tempo e esquecer a tragédia.

Em jeito de sugestão literária, deixamos aqui algumas das melhores leituras que, este ano, nos entreteram, surpreenderam ou ensinaram novas ideias. Caveat lector: é uma lista de livros muito pessoal, não está focada nas novidades literárias do ano, ou em indicações de editoras parceiras. É uma lista de leituras vinda de livrarias, alfarrabistas ou bibliotecas digitais. Em comum, têm o serem os livros que mais nos surpreenderam este ano.

Livros de Ficção Científica e Fantástico

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The Medusa Chronicles, Stephen Baxter e Alastair Reynolds: Nada como uma boa space opera, escrita a quatro mãos por dois dos maiores praticantes do género, a dar continuidade a um conto de Clarke. Os panoramas são vastos, fala-se de vida em planetas do sistema solar, sociedades construídas por robots inteligentes, um choque de civilizações entre a humanidade e as suas criações robóticas, e vida alienígena avançada. Um daqueles livros que aquece o coração dos amantes de uma FC mais clássica. 

La puerta, Manel Loureiro: Ficam desde já avisados. Se por acaso se atreverem a ler as primeiras páginas deste esplêndido romance de terror, não há saída possível. Ficam agarrados até à última página. Mergulhamos numa história de conspirações e terror milenar, entre a paisagem selvagem do interior da Galiza, vestígios e tradições ancestrais que foram herdadas dos tempos celtas… ou talvez mais atrás. O final do livro é deliciosamente irónico, invertendo as expetativas que se vão construindo. Ignorem a capa chick lit, o interior é imperdível.

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The Road to Science Fiction, James Gunn (editor): Daquelas preciosidades que se descobrem nos alfarrabistas. James Gunn (o escritor, não confundir com o realizador de Guardiões da Galáxia) editou um conjunto de livros que traçou um retrato vertical da ficção científica ao longo do tempo, a partir de contos ou excertos de romances. O primeiro volume é dedicado às obras que, não sendo ficção científica, podem ser apontadas como os primórdios do género. Do Épico de Gilgamesh a Verne, sem esquecer Wells ou Shelley, passamos por fragmentos de textos da antiguidade até ao século XIX que tocaram em diferentes temas do que agora é a ficção científica.

A Memory Called Empire, Arkady Martine: Um excelente sinal da renovação temática e estilística trazida pelos novos autores de FC, bem merecedor do prémio Hugo. É space opera, com os suas enormes panoramas e complexas intrigas, mas o clássico termina aí. A sensibilidade é profundamente millenial, aberta à diversidade cultural. A começar pela visão de um império galáctico decalcado das civilizações pré-colombianas. É o tipo de livro que deixa irritados os leitores mais tradicionalistas, pelo que vêem como intrusão de temas sociais no género. 

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Waste Tide, Chen Qiufan: Uma mistura de cli-fi com cyberpunk, vinda do pujante campo da ficção científica chinesa. Não é um livro perfeito, com elementos narrativos que poderiam perfeitamente ser dispensados, mas a evocação de uma ilha que faz vida da recuperação de lixo de alta tecnologia e o tropeçar em tecnologias avançadas de interface cerebral cibernético são excelentes pontos de partida para aventuras cyberpunk modernas. Com mechas.

The Collapsing Empire, John Scalzi: Se me perguntarem se a esmagadora maioria das leituras de ficção científica deste ano foram space opera, pois, bem, exato. É um vício, confesso. Este é o primeiro de uma trilogia, escrito por um dos melhores praticantes de uma FC mais comercial, mas mesmo assim boa literatura. Num futuro distante em que a Terra é uma memória esquecida, a humanidade espalha-se por habitats e planetas semi-habitáveis, interligada por uma estrutura capaz de assegurar viagens superlumínicas. A interdependência desta sociedade é ameaçada por alterações físicas â rede de ligações, que deixará sem comunicações muitos dos habitats, e os seus habitantes condenados à extinção. O caos segue-se, com negacionistas a recusar a evidência científica, aqueles que querem garantir o seu enriquecimento mesmo em face do colapso civilizacional total, e uma jovem cientista que se vê projetada para o cargo político mais importante da sociedade. Scalzi não é nenhum idealista, e esta série é essencialmente uma longa metáfora sobre a forma como colocamos os ganhos a curto prazo à frente de visões a longo prazo, mesmo que isso signifique que algo de mal nos aconteça no futuro.

Providence, Max Barry: Com a humanidade em guerra contra um implacável inimigo alienígena, a tripulação de uma nave controlada por inteligência artificial vê-se isolada para lá das linhas inimigas. Outra vez space opera, estão a pensar? E não estão a pensar mal, mas o livro cruza as linhas da Space Opera e da FC Militarista para entrar no campo do terror. Digamos que a ameaça alienígena que a humanidade combate é uma civilização-enxame de criatura profundamente horrendas. O livro não tem  um final feliz.

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O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto, Deanna Barroqueiro: Não sendo particularmente fã de ficção histórica, foi com estranheza que percebi que não estava a conseguir resistir a este livro. É monumental, pelo tamanho e ambição. Resume, romanceia e essencialmente aproxima-nos da Peregrinação de Fernão de Mendes Pinto, ao mesmo tempo um clássico histórico da literatura portuguesa e um relato das inúmeras aventuras vividas pelos portugueses que, no século XVI, iam para a Índia em busca de riquezas. Glória e expansão da fé, diz-se oficialmente, mas na verdade, era o lucro a qualquer custo que motivava à aventura. De certa forma, a autora traduz para os leitores uma obra cuja leitura original não nos é fácil, não só pelo estilo mas pelas mudanças linguísticas. As aventuras, ou melhor, desventuras de Mendes Pinto são contadas não como relato, mas como romance, dando à história um caráter de aventura pura. O romancear torna este pesado livro numa leitura leve, estruturada em pequenos capítulos que nos contam episódios da Peregrinação, e não só. A autora consultou uma enorme quantidade de fontes históricas que complementam, ou dão outras visões, sobre as histórias de Mendes Pinto.

Visions of Humanity: Recordar os tempos em que as revistas de ficção científica eram o meio dominante de discussão cultural no género. Esta é dos tempos de hoje, seguindo uma curadoria temática. Cruza ficção de novos autores com clássicos, ensaios e ilustração de excelente qualidade. Acaba por funcionar mais como antologia temática do que revista clássica, mas não tem o peso literário deste formato. A leitura convida à reflexão. Este segundo número olha para a humanidade. A ficção traz-nos visões especulativas do cruzamento entre ciência, tecnologia e humanismo, enquanto os ensaios vão do futuro da saúde aos impactos da inteligência artificial, passando pelo potencial libertador da tipografia (leram bem, e é um ensaio que vale a pena ler, iniciando com a tipografia clássica e terminando nos emoji).

Children of Time, Adrian Tchaikovsky: Foi daquelas sagas de FC que, finalmente, li. É space (estou a ver os leitores a rebolar os olhos) opera, mas com um fôlego muito profundo. Com os sobreviventes de uma humanidade condenados a vaguear pelo espaço em naves geracionais, após uma implosão civilizacional causada por uma guerra civil provocada por facções anti-científicas, restam alguns planetas que estavam em processo de terraformação com potencial nova casa para os humanos. O problema está quando a terraformação corre bem demais, e esses planetas acabam por albergar novas formas de vida inteligente, que evoluíram devido à manipulação genética viral concebida por cientistas há muito desaparecidos.

Banda Desenhada, Comics, Mangá

livrosO Penteador, Paulo Mendes: Se há excelente surpresa na edição de BD portuguesa deste ano, é este livro. É de notar que mesmo em tempos de pandemia, houve bastantes lançamentos. Este destaca-se pela sua leveza, bom humor apurado, e traço. O Penteador é um livro sobre tudo, e sobre nada. Sobre as coisas simples, a amizade, o convívio, os sorrisos, o lado báquico da vida. Uma excelente e discreta surpresa, um dos melhores livros que li este ano. Um livro que nos deixa a sorrir, com o seu humor destravado embora discreto. Algo que, nos tempos que correm, é especialmente tocante. No Longer Human, Junji Ito: Em No Longer Human, Junji Ito está firmemente no campo do horror psicológico, do terror que vive no interior do ser humano. Esta adaptação, eficaz, de uma obra sobre a incapacidade de se adaptar à convivência com a humanidade é profundamente inquietante. Ito usa com mestria e equilíbrio a sua estética para nos provocar desconforto, sublinhando o caráter desta história sobre a desumanidade interior. Não é um livro com a estética visceral que habitualmente esperamos deste mestre do mangá de terror. O medo aqui vem do interior e não de incompreensíveis forças sobrenaturais. Andrómeda ou O Longo Caminho para Casa, Zé Burnay: Este é o outro grande livro de banda desenhada portuguesa que li este ano. Vale essencialmente pelo deslumbre visual, a estranheza de uma história algo surreal, que cruza um fantástico onírico com mitos gregos sublimados numa visão artística muito pessoal. Visualmente, deixa qualquer leitor de queixo caído. Tem um traço incrível em registo de preto e branco, e demasiadas referências à iconografia da antiguidade clássica para não deixar indiferente quem aprecia a herança greco-romana. 

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Le storie n. 1: Il boia di Parigi, Paola Barbato, Giampieri Casertano: A pandemia também teve coisas (amargamente) boas. Nas semanas dos primeiros confinamentos, muitas editoras colaboraram nos apelos para as pessoas se manterem em casa libertando online livros gratuitos. Como fã de fumetti que sou, destaco a iniciativa da Bonelli, que disponibilizou uma coleção com os seus mais icónicos títulos. Deles todos, destaco este, uma história que nos leva aos tempos sangrentos da revolução francesa, vistos pelo olhar de um carrasco humanista, para quem a guilhotina é um peso moral. Excelente pretexto para descobrir a coleção de livros Le Storie, onde os argumentistas e ilustradores da Bonelli podem desenvolver uma banda desenhada afastada dos personagens comerciais, sempre de enorme qualidade.Desvio, Ana Pessoa, Bernardo Carvalho: Um daqueles livros que cativa não pela história em si, que é uma regular narrativa sobre a definição de identidade de um adolescente. O que o torna irresistível é o grafismo, um trabalho de ilustração vibrante e arrojado que cruza ilustração com o formalismo da banda desenhada.

Dylan Dog: O Imenso Adeus, Tiziano Sclavi, Carlo Ambrosini: Se não se sugerisse um Dylan Dog nos melhores livros do ano, isso sim seria surpreendente. Quem escreve estas linhas é dylaniatti assumido. Esta é talvez das mais belas e complexas histórias escritas por Sclavi. Como beleza e complexidade são características comuns ao trabalho do criador de Dylan Dog, classificar esta como das melhores é já dizer muito. Não sairão defraudados, com esta aventura poética do investigador dos pesadelos. Sim, o título homenageia Chandler, tudo em Sclavi tem estes duplos sentidos, docinhos para a mente dos leitores conhecedores. Talvez o que mais seduz nesta história seja o seu profundo onirismo. Reduzida aos seus elementos essenciais, é ao mesmo tempo uma história de fantasmagorias e de remorsos pela dificuldade em confessar o amor. Percebemos isso muito depressa, vemos logo qual é o caminho da narrativas. Mas nestas coisas da boa literatura, não é só o destino que interessa, mas sim o percurso. 

Umbra #02:  O foco da Umbra está na banda desenhada de ficção científica, procurando recuperar, como observa o excelente editorial, uma tradição clássica cujo pináculo está nos títulos da EC Comics. Histórias curtas, plot twists provocadores, e essencialmente enorme qualidade artística, assumindo a importância do estilo gráficos dos desenhadores. Uma excelente forma de ler o trabalho de autores portugueses.

Não Ficção: Ciência e Tecnologia

Analogia, George Dyson: Metade deste livro é para esquecer. George Dyson passa demasiado tempo a contar a sua história de vida, sempre relacionada com a do seu pai, o físico Freeman Dyson. Mas então, porquê o destaque? Analogia aflora ideias interessantes. A comparação com o nosso mundo analógico mas computacional, com o mundo computacional lógico que construímos tem por detrás a ideia que a computação profunda é analógica e não digital. Que a infinita variação do analógico é mais rica e inteligência que os estados binários sim/não da nossa corrente tecnologia digital. É aqui que Dyson mostra a sua ideia basilar. Ferramenta imperfeita que é (e qualquer observador das tecnologias digitais, estabelecidas e emergentes, sabe que para além do hype são ferramentas muito embotadas), a tecnologia digital está a levar ao surgimento de comportamentos emergentes, que transformam as sociedades e as pessoas. Não mergulha a fundo nisso, mas percebe-se onde quer chegar, é um pouco aquela ideia mcluhaniana de “modelamos as nossas ferramentas e depois elas modelam-nos a nós” à escala global. As ferramentas digitais que Dyson considera elementares pela forma como reduzem a complexidade ao binário, ao serem usadas, geram um acumular de comportamentos complexos capazes de transformar as nossas sociedades. Para Dyson, os nossos computadores não são inteligentes (apesar do marketing que para aí vai), mas os comportamentos padronizados que potenciam poderão ser uma nova forma de inteligência.  

A Man on the Moon: The Voyages of the Apollo Astronauts, Andrew Chaikin: Se se for como nós, aqui no Bit2Geek, apaixonados por Espaço e pelas suas possibilidades, este é um dos livros mais deprimente que se pode ler. Não pelo livro em sim, um relato detalhado do programa Apollo, construído como uma reportagem a partir de documentos e entrevistas aos astronautas. Uma forma cativante de aprofundar a história da exploração espacial. O que é que o torna deprimente? A terrível sensação que, após as missões Apollo, a humanidade está muito longe de voltar a pisar o solo lunar.

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New Maps of Hell: A Survey of Science Fiction, Kinsgley Amis: O romancista inglês era um apaixonado pela ficção científica, e chegou a publicar alguns romances do género. New Maps of Hell é uma clássica análise crítica às vertentes literárias da ficção científica. Feita por um autor que sendo fã, traz o seu sentido literário afinado nas vertentes mais eruditas, e também um salutar sentido crítico. O livro tem um forte lado didático, um explicar aos que fugiam da FC por a considerarem simplista que o género de facto não o era. Que tinha os seus modos narrativos, temáticas, iconografias. Que era muito mais do que aventuras no espaço e bug-eyed monsters, ou mera tentativa de antevisão do que viria aí.

How to Astronaut: Everything You Need to Know Before Leaving Earth, Terry Virts: Este livro não vai ganhar nenhum nobel da literatura. Mas é único na forma como nos conta sobre o que é ser um astronauta, pela voz de quem realmente o é. Neste conjunto de pequenos ensaios, o veterano fala-nos da sua experiência em missões no Space Shuttle e na Estação Espacial Internacional. E conta tudo, desde os detalhes divertidos aos momentos assustadores (indeciso entre uma fuga de amoníaco na estação ou a reentrada atmosférica numa Soyuz, passando pelos dramas, pela intensidade do treino a que são sujeitos. E sempre com um olhar no absoluto fascínio de, no meio da imensas tarefas e cuidados extremos, parar e contemplar lá de cima o nosso planeta azul.

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Cinco Livros Para Descobrir a Ficção Científica Portuguesa

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.