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Esta semana, destacamos algumas das recentes edições de banda desenhada em Portugal, a reedição de O Amor Infinito Que Te Tenho, os oitenta anos de um eterno adolescente, e o céu de David Lynch. Olha-se para a importância educativa de programar tartarugas (leram bem), para os dilemas da inovação educacional com tecnologia, e uma app que democratiza a expressão artística com Inteligência Artificial. Ainda se fala do cruzamento entre a herança artística europeia e a tecnologia numa exposição, das novas formas de entender o equilíbrio entre vida e trabalho, ou os mistérios dos Etruscos. Outras leituras vos aguardam, nas Capturas desta semana.

Ficção Científica e Cultura Pop

Annibale Casabianca, 1973: Cidades do futuro.

Comic Book Creators Talk About The Life Of George Pérez: Uma elegia em vida, com uma multidão de criadores a recordar memórias com esta lenda viva dos comics. O seu recente anúncio de sofrer de cancro terminal inoperável chocou a comunidade, e os fãs. Como leitor, recordo o classicismo marcado de Pérez no seu trabalho com Wonder Woman, foi o criador que mais sublinhou a ligação desta personagem com o substrato estético e cultural dos mitos gregos.

Polvo – NOVIDADE – O Amor Infinito que te tenho e outras histórias: Cito a nota de imprensa da Polvo, sobre a reedição daquele que é um dos mais tocantes livros de banda desenhada portuguesa, escrito e ilustrado por Paulo Monteiro: Numa nova edição, ampliada e com capa cartonada, o primeiro livro de banda desenhada de Paulo Monteiro mostra de forma clara e concisa o percurso de maturação de um autor que vive intensamente as histórias que conta e desenha. Com uma narrativa plena de subtileza, reúne um conjunto de histórias curtas efetuadas entre 2005 e 2010 e exibe a diversidade de sentimentos que uma vida pode conter. Já se tornou, com toda a justiça, no livro mais traduzido de sempre da banda desenhada portuguesa. Premiado, entre outros, com o Prémio para Melhor Álbum Português no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, em 2011.

O Relatório de Brodeck – Manu Larcenet (Philippe Claudel): Ainda não me atrevei a meter este lançamento de BD na calha de leituras, porque, enfim, como dizer? Ainda tenho as pilhas da Feira do Livro, Amadora BD e Fórum Fantástico para dar conta. Mas, entre as críticas públicas e algumas observações em privado, já percebi que esta é uma daquelas obras a não perder.

Revista Suprassuma nº 1: Do Brasil, uma nova revista de literatura fantástica, que nos traz as novas vozes brasileiras do género.

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Chris Moore: Cidades espaciais.

A SF “bande dessinée” Review: Enki Bilal’s La Foire aux immortels (trans. The Carnival of Immortals) (1980): Apesar de ainda ativo, Bilal começa a estar fora dos radares da crítica, apesar dos projetos recentes serem excelente ficção científica, com ilustração a roçar o surrealismo e abstracionismo. A Feira dos Imortais foi, a par com o thriller político O Caçador (escrito por Pierre Christin), o livro que marcou Bilal como um dos grandes nomes da banda desenhada francesa. Toda a trilogia é uma brilhante ficção científica, com o seu decadente (e decaído) ambiente de futurismo neo-fascista intersectado com uma perversão dos mitos egípcios.

Eros y Teratos: El arte de amar lo extraño y grotesco | Rakel S.H.: Sobre a atração pelo horror monstruoso, e os frémitos que provoca.

P Craig Russell, 1980: O mestre da elegância na ilustração de fantasia.

Dylan Dog – O Número Duzentos (Paola Barbato e Bruno Brindisi): Mais uma excelente edição d’A Seita, que nesta proposta nos traz uma história que sintetiza, pelas mãos da sempre excelente Paola Barbato, uma narrativa de origem de Dylan Dog.

The Roots of Riverdale: Archie Comics Turns 80: Oito décadas de eterna adolescência… é obra. Archie é o único sobrevivente de um género de comics que praticamente desapareceu, com o crescimento do género super-heróis. A comédia adolescente, uma idealização da eterna juventude entre aventuras, namoros e milkshakes no café da vila, um elevar do estilo americana a aspiração de vida, que se tem mantido essencialmente imutável desde os anos 40.

At the Mountains of Madness: Guillermo del Toro Teases Weird Ending: Ainda mais estranho do que o conto original? Esta obra de Lovecraft já é de si estranha, e fascinante pelas visões geográficas e arquitetónicas que invoca. Sempre me pareceu ser esse o principal ponto de interesse da adaptação de Del Toro, o potencial visual do trabalho de um realizador que é um amante das estéticas barrocas.

“In Heaven” from David Lynch’s Eraserhead is one of my favorite scenes of all time: Uma cena particularmente assombrosa, de um filme que já de si é um assombro.

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Building Human-Robot Relationships Through Music and Dance: Um projeto intrigante, pela forma como se socorre da arte para investigar as dinâmicas de interação humano-máquina.

Learn from machine learning: Uma intuição interessante. Ao analisar a forma por vezes insondável como os algoritmos de aprendizagem máquina atuam, esquecemos que a verdadeira black box, cheia de complexidade e inesperado, é o mundo real.

How Pee-in-Place Systems for Military Pilots, Both Male and Female, Work: Se alguma vez tiveram curiosidade de saber como é que os pilotos de aeronaves de combate resolvem o problema das necessidades fisiológicas, bem, a vossa curiosidade ficará aqui satisfeita.

What Could Be Cooler Than Typing on a Keyboard Salvaged From a Nuclear Missile Silo?: Quero? Confesso que me parece algo com muito estilo, bater texto num teclado reciclado de controladores de mísseis nucleares.

Salmon Plastic Sperm Mug? Salmon Plastic Sperm Mug: Não resisto à piada. “Então, de que plástico é feito o objeto?” Um bioplástico. “Muito bem, mas de que tipo?” Bem, fiquemos por um bioplástico.

El Salvador: a legalização da Bitcoin e a fragilização da Democracia: Sabemos que o crescendo do autoritarismo está a ficar desavergonhado quando um ditador se assume nas redes sociais como “ditador cool” (estas coisas não se inventam). Junte-se a isto a pura especulação financeira, com a bitcoin a transformar todo um país para jogos financeiros, sem que isso se traduza numa real melhoria das condições de um povo largamente pobre.

Zuckerberg’s Metaverse Is Screwed If It Doesn’t Allow Sex: Regra 34. Se há atividade, alguém olha com olhos de luxúria. E a sexualização dos mundos virtuais é um clássico, um dos aspetos que sempre lhes deu força é poderem ser um recreio seguro para experimentação sexual. Claro, isto é anátema para o puritanismo de uma rede social que é famosa pelo seu horror a genitais, e liberalidade com apelos à violência.

Best 3D modeling software in 2021: Lista das melhores soluções de modelação 3D, entre software aberto e proprietário. É engraçado ver que o venerável Wings 3D continua a ser considerado uma excelente alternativa no campo do software gratuito de modelação 3D.

Deep Dreams is an AI-generated podcast to help you sleep: muito sedutor, o profundo surrealismo de usar o GPT para gerar palavras aleatórias que ajudam a adormecer.

What really is ISO in photography?: Um mergulho profundo na norma ISO, e sua aplicabilidade na fotografia digital, onde a tecnologia eliminou os limites físicos da película.

Make a Turtle!: A contribuição de Miles Berry, professor inglês que está na vanguarda da integração de programação e pensamento computacional na educação, para uma recente edição que revê 20 Things to Do with a Computer, de Paper e Cynthia Solomon. Estimular aprendizagem de programação, vista não pelo seu lado utilitário, mas como forma de capacitação profunda das crianças, aprofundando formas de pensar e não se ficando pelo mais superficial lado de aprender comandos e programar ações.

Os 7 projetos mais surpreendentes da bazuca portuguesa: O PRR tem um forte pendor para a inovação na ciência e tecnologia, e alguns dos projetos surpreendem, pelo investimento em áreas como a inteligência artificial, o espaço, ou o uso de insetos na alimentação (uma forma fácil de ultrapassar o sentimento de repulsa que sentimos face a comer insetos, seria incorporá-los como parte dos processos de processamento alimentar).

Robots Evolve Bodies and Brains Like Animals in MIT’s New AI Training Simulator: Um ambiente de simulação virtual que permite a algoritmos evoluir formas de corpos virtuais.

Why Innovation In Education Is So Difficult: Inovar em educaçáo não é especialmente difícil, especialmente com tecnologia (modéstia à parte, ao longo da minha carreira tenho conseguido alguns sucessos, e tenho tido o privilégio de acompanhar o trabalho espantoso de muitos outros professores que mudam as práticas educativas com tecnologia). O problema é torná-la sustentável, e replicável, escalar para lá da nossa sala de aula, da prática individual, chegando aos limites da escola e tornando-se sistémica. Algo que os ministérios da educação preferem fazer por decreto, decretando medidas inovatórias, despejando formação que é frequentada por docentes que, na esmagora maioria, depois da formação não incorporam o que aprenderam nas suas práticas (por uma óbvia razão, não sentiram a necessidade no terreno). Algo que, para ser bem feito, demora, obriga a um trabalho constante de divulgação que mostre o que se pode fazer na prática, com as crianças, e não se limite a uma mão-cheia de chavões. No fundo, ajudando a criar a necessidade para a inovação com tecnologias. Que tem ainda um problema adicional, os custos. Implica custos com hardware, que avaria e se torna obsoleto, e demasiadas vezes os projetos de integração não têm em conta a sua sustentabilidade a longo prazo. Até os mais amantes da tecnologia na sala de aula desistem perante hardware obsoleto, com o qual nada se pode fazer. Implica também custos com software, que por cá se resolve de uma forma muito estranha. Projetos que despejam rios de dinheiro em equipamentos dependem depois da boa-vontade de multinacionais (o M365 e o Google Workspace são gratuitos para educação, com o resultado das escolas oferecerem de mão-beijada os dados das crianças e utilizadores a estas empresas); ou então há sempre alguém que observa “mas não se arranja aí uma versão sacada da net” quando de fala de algum software mais específico.

El futuro de la guerra es tecnológico: Drones, ciberguerra e inteligencia artificial pueden acercamos a una nueva Guerra Fría: Um vislumbre do que poderão ser os conflitos futuros, mediados por tecnologia autónoma militar, foi-nos dado pela forma como drones de baixo custo massacraram forças convencionais no recente conflito entre a Arménia e o Azerbeijão. Estas armas estão a proliferar, e a ser ativamente desenvolvidas pelas indústrias dos países que são potências militares regionais, com poucos escrúpulos sobre a quem as vender.

This AI art app is a glimpse at the future of synthetic media: Uma forma rápida e acessível de experimentar a criação de arte automatizada com inteligência artificial. Usar esta app sempre é mais amigável do que os inúmeros Google Colab Notebooks que nos permitem importar algoritmos, modelos de treino, e gerar outputs visuais a partir de inputs textuais. Para quem está dentro do assunto, está claro que a Wombo AI está a usar a combinação VQGAN + CLIP, que tem sido experimentada e afinada por muitos investigadores e artistas.

The West’s Nuclear Mistake: O paradoxo da tecnologia nuclear, que pode ser um elemento importante na descarbonização da energia, mas é travado pelos medos, e pelos perigos, do trabalho com elementos radioactivos.

Modernidade

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QUAYOLA re–coding: Para quem estiver por Roma, suspeito que esta exposição de arte refeita por algoritmos é uma descoberta a fazer. Tenho de ir descobrir mais sobre este intrigante artista italiano, que cruza a herança cultural europeia com tecnologia.
The Boundaries Between Nations Are Blurrier Than We Think: Recordar que o caldo genético global é… um caldo de misturas, de inter relações entre povos migratórios, algo que nos chega da mais primeva antiguidade. As descobertas da arqueologia do ADN tornam especialmente patéticas as ideias de superioridade e pureza racial.
How to Care Less About Work: Talvez seja uma das grandes questões que é comum a todos nestes dias de pandemia/pós-pandemia. A disrupção das rotinas trazida pela covid levou a muita coisa, e para muitos, ao questionar da validade do que faziam, das suas escolhas profissionais. Especialmente nas profissões mais ligadas ao conhecimento. Os valores clássicos, o definir uma vida por aquilo que se faz, ficaram em cheque num momento em que percebemos que o trabalho não é tudo. Que a vida tem muito mais vertentes importantes. Repensar, reavaliar, perceber o que realmente queremos, se vale a pena tanto investimento da visão tradicional do trabalho, é uma das consequências da vida pandémica.

What Industrial Societies Get Wrong About Childhood – Issue 108: Change: Confesso que li o texto com assombro, percebo o deslumbre de uma antropóloga com as formas de educação social das sociedades indígenas que observa. Mas ao lançar-se na previsível diatribe contra a escola que temos nos países desenvolvidos (esquecendo que assume muitos outros mantos para além do mito do bom passado naturalista), deixa totalmente de parte uma das influências fundamentais para o lado progressista da educação: Vygotsky e o seu conceito de zona de desenvolvimento proximal, onde a interação social é o meio fundamental para desenvolvimento de aprendizagens.

Who Were the Etruscans? DNA Study Solves Origin Mystery: Um olhar científico para os mistérios da civilização Etrusca, que coexistiu com o nascimento de Roma, até ser absorvida pelos romanos.

Memórias de homossexuais e lésbicas no Estado Novo: da repressão à resistência quotidiana: Como era ser LGBT nos tempos (felizmente idos) do Estado Novo, recordando as leis, a repressão e os subterfúgios. O artigo pareceu-me ter sido escrito com erros ortográficos, até que percebi que foi tentada a utilização de linguagem inclusiva. Não funciona. No entanto, é uma leitura muito pertinente.

Los océanos suman una nueva (e impactante) comunidad: las islas de plásticos se están convirtiendo en hogar de especies costeras: As ilhas flutuantes de lixo e detritos que vagueiam pelos oceanos, tornaram-se ecossistemas que transferem fauna. Efeitos do antropoceno.

Colonial Fault Lines Fracture the Madrid Art Landscape: Visões sobre arte e colonialismo, entre exposições de artistas contemporâneos que questionam a visão dourada da história da colonização das américas, ou o recuperar de artistas nativos, cujo trabalho é equivalente ao dos clássicos da arte, mas pela sua condição étnica foram relegados para museus de antropologia.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.