Escolher as melhores leituras do ano nunca é uma tarefa fácil, embora seja prazerosa. Especialmente num ano editorial muito rico no que toca à banda desenhada. Se bem que boa parte destes livros não representam as novidades do ano. As nossas leituras acompanham e fazem evoluir os nossos gostos. Este não é um artigo de promoção literária, ou de busca de cânones de perfeição literária, apenas uma recolha de leituras algo aleatórias, surpreendentes pela sua temática e qualidade. Deixamos aqui os nossos destaques, nos domínios da Ficção Científica, Fantástico, Não Ficção e Banda Desenhada.

Ficção Científica

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The Praxis, Walter John Williams: Não se resiste a uma boa space opera. São livros de vasto panorama, de ideias e conceitos levados aos limites, mas também FC de entretenimento, porque às vezes, o que precisamos mesmo é de uma boa história de aventura no espaço. The Praxis é a clássica história de um império que se desmorona, já milenar, mas imutável. Foi fundado pelos Shaa, uma espécie alienígena quasi-imortal que sentiu ser o seu fardo civilizar todas as espécies inteligentes da galáxia à imagem do seu ideal civilizacional. Todas, sem exceção, caem perante o seu poderio militar e são assimiladas, controladas e redefinidas numa visão de lealdade total. Agora, milénios depois da estabilização, o último destes imortais prepara-se para morrer, confiante que deixa um legado firme e uma civilização multi-espécies imutável. Demora o seu tempo, mas esta história cativa. Após ultrapassar o bizantino pântano que nos apresenta à sociedade da Praxis, o livro explode numa space opera militarista de elevado ritmo.

Network Effect, Martha Wells: Nem sempre a FC tem de ser interventiva ou de especulação profunda, por vezes o que precisamos como leitores é de uma boa aventura. Este é daqueles livros que preenche estas condições, embora assente num excelente mundo ficcional que nos é revelado sem fricções ou infodumps, vamos reconstruindo-o na nossa mente de leitores seguindo as interações dos personagens. A narrativa é pura aventura, saltamos de peripécia em peripécia, acompanhando o robot (cyborg seria um termo mais apropriado) assassino que, de facto, é uma máquina otimizada para garantir a segurança dos seus clientes, com extremo prejuízo para os que considerar ameaça.

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Seis Drones, António Ladeira: Um daqueles livros discretos, de excelente ficção científica, alicerçado em profunda ironia e especulação sobre futuro próximo que, claramente, assenta numa análise profunda sobre as correntes tendências da digitalização da sociedade. Não é a FC das aventuras no espaço, que nos encanta e nos deixa a sonhar com os horizontes do eventual futuro longínquo. É a FC de especulação informada, que usa a narrativa para nos deixar a pensar sobre os impactos sociais da tecnologia. Não sei se foi escrito com esta intenção, nem tal me parece, os contos são literários e não artifícios didáticos. Mas é essa a impressão que este livro nos deixa. A sua especulação, o seu futurismo de discreta distopia de aspeto doce, são meditações sobre as tendências que estão a modelar o nosso futuro. No seu cerne, estes contos são ácidos, profundamente distópicos, narram situações revoltantes. Mas são contados num tom deliberadamente leve, num perfeito double think em que a sujeição, a restrição e o controle são apresentados como benéficos e impostos com intenções benévolas. É esta ironia ácida que torna Seis Drones um incisivo livro de ficção especulativa.

Homine ex Machina, Caros Sisí: Este é talvez dos livros de ficção científica mais cândidos na sua abordagem à inteligência artificial, num sentido voltairiano de profundo otimismo. Sisí imagina uma inteligência artificial generalista benévola, um algoritmo que se desenvolve sempre a pensar no bem estar da humanidade. É uma perspetiva diferente do habitual catastrofismo ao estilo exterminador implacável, muito inocente e que se sustenta no lado mais otimista das tendências de impacto destas tecnologias na sociedade. Inocência não implica simplismo, e Sisí esforça-se imenso na construção do mundo ficcional para mostrar que analisou o tema, e é capaz de sustentar a história em premissas sólidas e linhas narrativas interessantes. Sisí desenvolve uma história que nos agarra, não tanto pela narrativa em si, mas pela curiosidade em ver como as ideias evoluem ao longo do livro. O livro é profundamente otimista, vê as boas possibilidades na automação da economia, e olha para a Inteligência Artificial como uma forma da humanidade evoluir e se melhorar. U

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The Ministry for the Future, Kim Stanley Robinson: Surpreende um inesperado apelo à violência neste livro, algo que parece ser pouco consentâneo com a ficção científica metódica e cerebral de Kim Stanley Robinson. Mas é compreensível. Ministry of the Future é um romance sobre as alterações climáticas, algo que já deixou de ser um perigo iminente, é hoje uma realidade catastrófica. No seu romance, Robinson coloca eco-terroristas a torpedear navios de carga ou abater aleatoriamente aviões de passageiros, o que obriga as empresas a desenvolver meios alternativos, reduzindo drasticamente o impacto da aviação e comércio marítimo no ambiente. Discursos e declarações de intenções são bonitos, mas um míssil inesperado é muito mais convincente. Apesar deste pormenor de curiosa violência, é um romance otimista. Percebe os enormes desafios económicos, sociais, e especialmente de mentalidades, que têm de ser ultrapassados para que se possa salvar o planeta – e, por extensão, a humanidade. Ao longo do romance, Robinson entretece uma teia de ideias interligadas, entre geoengenharia, alterações profundas ao sistema capitalista em direção a um socialismo global (mitigar desigualdades desarma um dos argumentos para a manutenção de sistemas poluentes, o sustento de populações), reflorestação à escala planetária, alterações aos modos de vida globais em direção à sustentabilidade. Talvez as propostas mais radicais de Robinson se prendam com os sistemas financeiros, onde especula sobre uma criptomoeda global indexada à descarbonização, que permitiria manter o sistema capitalista com incentivos reais à diminuição das emissões.


Leviathan Falls, James S. A. Corey:  Final de uma das mais interessantes séries de livros de Ficção Científica, o livro conclui as aventuras de James Holden e a restante tripulação do Rocinante, sempre envolvidos, por acidente e por incapacidade de cruzar os braços, no centro das intrigas que se sustentam da expansão humana, primeiro pelo Sistema Solar, agora pelos milhares de sistemas acessíveis através da tecnologia alienígena que criou um enorme nexo interdimensional nos limites do sistema. Essa tecnologia, o mistério dos seus criadores, as razões do seu desaparecimento, a eventual ameaça que representam as forças capazes de exterminar civilizações avançadas, tem sido um dos temas de fundo da série, embora os seus livros se tenham centrado mais nas aventuras da tripulação, sempre metida nos jogos de poder interplanetários. Um final que encerra irremediavelmente a história, é verdadeiramente definitivo. A série literária The Expanse sempre se caracterizou pelo sopro de ar fresco que injetou no género Space Opera. Arrojada, bem concebida, equilibrando a plausibilidade científica com necessários voos especulativos, e essencialmente divertida. Foram nove livros escritos com um ritmo marcante, nove livros que agarram da primeira à última página, daqueles que se leem sem parar até ao final.

Livros Fantásticos

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A Dança dos Ossos: Antologia do conto gótico Luso-Brasileiro, Ricardo Lourenço: Um trabalho antológico de enorme fôlego, levado a cabo por Ricardo Lourenço, que dinamiza o Projeto Adamastor, um site que recupera a literatura esquecida para formato digital. Esta grande antologia reúne contos góticos vindos dos dois grandes polos da lusofonia. Traz-nos clássicos da literatura luso-brasileira, tendo as trevas, o horror e a decadência como tema comum. Encontramos alguns nomes muito bem conhecidos da literatura dos dois lados do Atlântico, mas também autores mais obscuros. Um trabalho notável que nos leva a conhecer as visões de terror escritas entre o século XIX e os princípios do XX, pegando nas tradições do tenebrismo gótico britânico e do sturm und drang alemão para as realidades portuguesa e brasileira. É uma excelente forma de descobrir o gótico tropicalista, e rever as grandes histórias do fantástico português.

Bohemians of Sesqua Valley, V. H. Pugmire: É provável que não conheçam o vale de Sesqua e os seus estranhos habitantes. Também não conhecia, até a minha curiosidade ter sido desperta por um texto sobre W.H. Pugmire, o excêntrico criador deste mundo ficcional. Personalidade queer e quirky, claramente um apaixonado pelo horror na veia mais clássica, amante e seguidor da prosa lovecraftiana. De certa forma, é um escritor de segunda linha, o seu trabalho é assumidamente derivado do de Lovecraft, mas consegue escrever sem imitar diretamente ou em pastiche. Até porque, lendo as aventuras dos boémios habitantes do vale, depressa percebemos que a estrutura lovecraftiana está lá, quer como pano de fundo quer com referências diretas aos mythos de Cthulhu, mas a voz de Pugmire segue outros caminhos, de um terror mais bucólico e poético do que a rendilhada grandiloquência cósmica de Lovecraft.Uma cidade isolada num vale do noroeste americano, talvez não muito longe da lovecraftiana Nova Inglaterra, no sopé de uma enorme montanha branca. Um local onde as barreiras entre realidades e sonhos são ténues, cujos habitantes não são completamente humanos. Um local que toca irremediavelmente as almas sensíveis que com ele se cruzam, quer deem com ele ao acaso, quer o procurem como parte de percursos no oculto. Um local onde os misteriosos deuses anciãos são venerados, e por vezes se manifestam.

Livros de Não Ficção

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El Infinito en un Junco, Irene Vallejo: Um longo ensaio sobre a história do alfabeto, que é em si uma declaração de amor à literatura e aos livros. Vallejo leva-nos às origens da leitura e escrita, focando-se em dois grandes polos – Grécia e Roma. Não que ignore as civilizações que as antecederam. O livro debruça-se também sobre o Egito, a Mesopotâmia e, inevitavelmente, a Fenícia. Mas se da Mesopotâmia herdámos os primeiros sistemas de escrita, do Egito o papiro, e da Fenícia a simplificação das linguagens ideogramáticas para a simbologia fonética, não herdámos deles muito que nos apaixone, em termos literários. Tabuinhas de barro com contabilidade e papiros administrativos dizem-nos algo sobre esses antigos povos, mas pouco sobre os homens e mulheres que eram. Restam poucos textos literários, a maioria eram utilitários, a escrita era uma ferramenta. Talvez as exceções sejam os mitos egípcios, o Épico de Gilgamesh ou as orações gravadas nas tumbas ou em tabuinhas de barro. Mas falta, nestes longos primórdios, duas das vertentes que sustentam o nosso uso das letras: a busca pelo conhecimento, e a transmissão do sentimento individual.

All of the Marvels, Douglas Wolk: O ponto de partida deste livro soa a uma espécie de piada a brincar com a cultura Geek: o autor propôs-se ler todos os comics da Marvel, desde o início até aos dias de hoje. Declaração fértil para terminar em piadas sobre danos cerebrais, ou masoquismos pop. Mas o propósito é sério, um mergulho a fundo na mitologia da editora de comics, que permite perceber que as aventuras dos seus personagens não são conjuntos isolados de histórias, mas sim uma enorme narrativa, abrangente e de renovação contínua. Wolk assume esta continuidade pela observação, do alto da sua experiência. Este livro celebra os comics, o longo historial da Marvel e o seu papel como força cultural. Não foge aos pontos mais delicados desta história – as relações complexas entre Stan Lee e Jack Kirby, sempre tratado com injustiça por uma editora que não existiria sem o seu trabalho, ou ideias sociais de que, felizmente, evoluímos como sociedade (grande parte dos temas e fórmulas clássicas da Marvel chocariam o lado mais woke da cultura contemporânea, mesmo dando de barato que são facilmente chocáveis). Lê-lo ajuda a perceber o porquê de se ser fã, o saber que mesmo já com alguns anos a pesar sobre os tempos de juventude que são o público-alvo deste género, sabe bem não só regressar às histórias clássicas, como acompanhar as atuais. É entretenimento, é certo, mas por detrás do aparente simplismo há complexidade temática e narrativa, um longo historial e contínua evolução, sempre em sintonia com a evolução dos seus leitores.

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Cidades do Sol, Paulo Moura: Cruzei-me com este livro através das sugestões de leitura do Rogério Ribeiro no painel dos livros do ano no Fórum Fantástico. Fiquei seduzido pelo lado de busca de utopias, mas também por algo que foi observado pela forma perceptiva como o livro nos mergulha nas sociedades que visita. É literatura de viagens, mas não daquela que elenca locais pitorescos e instagramáveis, ou se foca nos roteiros e percursos. Paulo Moura partiu em viagem pela ásia em busca de uma questão profundamente humanista. Numa zona do planeta que associamos a futurismo instantâneo, entre o exotismo das suas raízes tradicionais, os focos de desenvolvimento tecnológico de ponta, e o crescimento urbano em arquitetura ultra-moderna, quais serão as aspirações da classe média, uma imensa massa humana que, pela primeira vez na história, está a ter acesso a um estilo de vida que nós, no ocidente, consideramos o normal e desejável. Para lá do fio condutor, da busca de resposta aos conceitos de utopia na zona do planeta que associamos à hipermodernidade contemporânea, há as visões e perceções de um viajante experimentado, que nos dão vislumbres sobre a realidade da vida no extremo oriente. Pelas palavras de um livro, daqueles que são de leitura compulsiva, sentimos o pulsar das gentes e das ruas das metrópoles, as contradições entre tradição e modernidade, a sensação da geografia.

A Invenção do Passado, Tamim Ansary: A história humana, vista como um imparável fluxo entre civilizações e geografias. Tamim Ansary olha para a história global, dos seus primórdios aos dias de hoje, e filtra-a de acordo com uma perspetiva informacional, ou seja, de que a história não depende das façanhas de homens importantes, ou das decisões, mas sim de um movimento de fluxo de ideias entre blocos civilizacionais, que se vão influenciando mesmo que não tenham relação direta entre si, porque as evoluções e convulsões internas vão sempre alastrar para as fímbrias, onde os mundos se tocam, e com isso repercutir-se em cadeia cíclica. Traz-nos uma refrescante perspetiva não-ocidental sobre a história. Por outro lado, na sua ambição de olhar para toda a história humana como um contínuo de fluxos de informação interrelacionados, dá-nos um enorme panorama, rico de ideias, mas necessariamente sem as detalhar. Não deixa de ser um livro fascinante, daqueles livros que nos leva a repensar o que conhecemos, e a olhar de forma diferente para as nossas raízes históricas.

Banda Desenhada

Apocalipse, A Revelação de S. João, Alfredo Castelli e Corrado Roi: Segunda proposta da editora A Seita para a sua linha editorial de obras mais sérias, que já nos trouxe o magistral Drácula de Georges Bess, este Apocalipse é uma excelente adição, num ano pleno de grandes lançamentos de banda desenhada em Portugal. Um trabalho de diálogo entre dois criadores ligados ao lado mais comercial da banda desenhada italiana, que aqui cruzam classicismo e subtileza gráfica. O resultado é uma viagem fantástica, que nos recorda um dos textos fundadores da mitologia cristã.

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O Coração na Boca, Horácio Gomes: O trabalho gráfico é narrativo minucioso, cuidado e bem estudado tem por detrás um enorme trabalho, de anos de esforço. Isso é patente no esplendoroso desenho deste autor. Cada vinheta é apaixonante, com um realismo equilibrado com onirismo. Só pelo lado visual já vale muito a pena a leitura. O efeito “a vida acontece” é o tema central deste livro. Profundamente pessoal, corajoso na forma como aborda a fragilidade da personalidade, um livro tão íntimo que por vezes, o leitor, se sente intrusivo. Coração na Boca é uma banda desenhada de estilo biográfico, replicando por cá uma corrente já clássica da BD independente americana, a da história de vida, com os seus sucessos, dramas e tragédias, exercício de auto-exame psicológico transmutado em obra de arte. Nisso, é tremendo. Não deixa o leitor indiferente, é uma leitura que abala. É este o poder das grandes histórias, mesmo que sejam sobre algo aparentemente banal como as vicissitudes da vida quotidiana, dos pequenos dramas pessoais. Este é um livro corajoso, algo atípico no panorama português, onde a BD autobiográfica não é usual. Uma obra fortíssima, que nos abala, que pega no tema da paternidade, da dedicação de um pai à sua filha, para um exame reflexivo às vicissitudes da vida. É preciso coragem para expor estas fragilidades tão a público, numa obra muito pessoal.

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Tetris, Box Brown: Uma história sobre o confuso processo de licenciamento do jogo Tetris, que na verdade é um elegante ensaio sobre o fascínio que o jogo exerce sobre nós. O foco do livro está na história da criação daquele que é talvez o jogo mais jogado de sempre, criado por Alexei Pajitnov na Moscovo dos últimos anos do império soviético. Um projeto de instinto, desenvolvido de forma informal para trazer para o digital o fascínio do seu criador pelo ato de jogar, e que se foi disseminando de uma forma que hoje diríamos viral, até chegar ao ocidente. Esta banda desenhada, ilustrada num estilo muito pessoal, olha para a história do Tetris, e com isso para a história dos videojogos. Mas o que a torna interessante é a sua visão sobre a psicologia do jogo, a sua importância histórica e cognitiva, bem como a sua relação com a arte. Em suma, aquelas coisas aparentemente fúteis que nos revelam a alma humana.

Planeta Psicose, Paulo Santo: Há obras de humor subtil, que conseguem desmontar temas fracturantes da sociedade contemporânea recorrendo à fina ironia para consciencializar e despertar atenções. Esta não é uma delas. Enfrenta de frente as temáticas que quer ironizar, com a subtileza de um rolo compressor. Planeta Psicose é reflexão temperada com a arte do exagero, em narrativa descarrilada para abanar o leitor, uma boa e divertida surpresa no campo da banda desenhada portuguesa.

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Dylan Dog O Número 200, Paola Barbato e Bruno Brindisi: A mais recente proposta Dylaniati da Seita é muito especial. Para comemorar ter chegado às duzentas edições mensais,a Bonelli encomendou algo de diferente. Paola Barbato, argumentista cujas histórias estanques e montadas com a precisão de um policial procedimental sempre seduzem, ficou encarregue de trazer um novo olhar à personagem. Nas suas geniais histórias, Sclavi nunca estabeleceu uma origem coerente à personagem que criou. Foi colocando indícios e insinuações, que Barbato entretece numa história de origens. Retira um pouco do mistério, da aleatoriedade que Sclavi trazia à personagem, é certo. Abre novos caminhos, normalizando a personagem, aprofundando os mistérios do seu passado. Bruno Brindisi, um dos ilustradores habituais da série, ilustra com o seu traço competente.

A Jornada de Kappa, de Imiri Sakabashira: O segundo lançamento da promissora editora Sendai é muito surpreendente. A Jornada de Kappa destila-se em poucas frases. É a história de uma menina que tem de sair de casa para procurar trabalho. O emprego que encontra, por acidente, é trabalhar num submarino pirata tripulado por kappas, criaturas míticas do folclore japonês. Soa simples, não soa? Quase linear e infantil, a história de puxar a lágrima ao olho sobre uma jovem inocente forçada ao trabalho com criaturas rudes, para poder ajudar o pai desempregado, certo? De uma história simples, a um voo de fantasia. A partir desta premissa mergulhamos num intenso mundo onírico, onde não há linearidade narrativa. A história vai ao sabor de um imaginário que não procura a compreensão, onde as criaturas já de si estranhas da tradição nipónica se vão sucedendo no périplo da jovem. O traço, o estilo visual, é de uma infantilidade enganadora, surreal e num estilo muito pessoal. Toda esta conjugação funciona, o livro agarra-nos pelo seu fantástico onírico, onde a cada prancha há sempre algo que nos surpreende. A sua riqueza visual é enorme, não se esgota numa única leitura deste que é um dos mais inesperados livros editados em 2021.

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Drácula, adaptado por Georges Bess: A adaptação de Georges Bess, que a editora A Seita traz aos leitores portugueses, insere-se, como não poderia deixar de ser, numa tradição iconográfica mais gótica. O estilo gráfico do autor francês tem a riqueza visual dos estilos clássicos, e liberta-a em força nesta notável adaptação. O mais visível é o seu caráter luxuriante, cada vinheta, cada prancha, são um festim para os olhos. Bess segue um estilo assumidamente gótico e art nouveau, visualmente riquíssimo, algo reminiscente dos goticismos dos ilustradores clássicos dos comics de horror da Warren. Bess liberta o seu talento, experiência e mestria nesta edição imperdível. O outro ponto muito notável está no ser das adaptações mais fiéis ao romance clássico de Stoker. Bess segue à risca o livro, quer no seu caráter de história que se constrói a partir de fragmentos sucessivos quer na fidelidade ao texto original. Visualmente luxuriante, inebriante na sua estética gótica, fiel à obra original, este Drácula de Georges Bess é uma excelente proposta editorial nos livros de BD.

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Livros: As Boas Leituras de 2020

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.