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Nestas primeiras Capturas do novo ano, destacamos cidades de fantasia, o excesso comercial da cultura pop, e a riqueza da língua portuguesa espalhada pelo mundo. Fala-se da história da inteligência artificial na Arte, dos saltos evolutivos da computação digital, e dos dilemas das armas autónomas. Ainda se olha para a universalidade da música, poesia digital e o piloto português que voou na RAF. Desejamos a todos os leitores um excelente ano de 2022!

Ficção Científica e Cultura Pop

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Vincent Di Fate: Visões clássicas.

4776) Oito cidades (21.12.2021): Um delicioso devaneio, sobre aquele tema que nunca se esgota, as urbes imaginárias.

23 libros recomendados para regalar esta Navidad de los editores de Xataka: Sugestões literárias, nunca são demais.

DC Publishes Nine New Batman Comic Books Today (Spoilers): O Bleeding Cool frisa a quantidade, mas esquece um pormenor curioso. Neste momento, Batman é a personagem mais explorada da DC, já a chegar à sobreexploração. Sucedem-se títulos com o personagem e derivados. A aposta no grimdark é clara, mas começa a ser excessiva.

Dark Horse Comics Purchased by Swedish Gaming Company Embracer: Um movimento intrigante na indústria, esta aquisição de uma das majors americanas. Suspeita-se que haja aqui uma ponte direta para aproveitamento para videojogos da imensa propriedade intelectual detida pela Dark Horse.

The Best Books of 2021: Interessantes sugestões de leitura, da ficção á análise tecnológica.

The Funko Pop! Is the Mascot of Nerd Imperialism That Will Outlive Us All: Não sou especialmente fã de Funko Pops, mas o ponto interessante deste artigo está na forma como coloca o dedo na ferida da sobreexploração da cultura pop. É certo que cultura pop sempre foi comercial – leiam as biografias dos grandes escritores de ficção científica e depressa percebem que a sua produtividade partia primeiro da necessidade de ganhar a vida, e só depois da criatividade, por exemplo. Adereços e merchandising sempre foram elementos acessórios. Mas o que se vive hoje é uma saturação, graças à popularidade da cultura Geek. A coisa explodiu de tal forma, com tanta quantidade, que se sente um desligar entre os adereços e os filmes, livros ou banda desenhada que lhes deram origem. Ou seja, este sentimento: “I feel like I’m being crushed by an unstoppable wave of nerd imperialism, a steamrolling of pop culture by corporate franchises that want to reduce everything to product lines of episodic stories that never end, generic Lego playsets, and uniformly sized and packaged vinyl toys.” O interesse, a piada da cultura pop nunca esteve no proliferar de adereços; se gostamos de os ter, é porque as histórias que lhes deram origem de alguma forma nos tocaram. Temo, correndo o risco de soar a quarentão rezingão, que essa ligação esteja demasiado diluída no dilúvio de nerdtoys.

Segredo Interestelar, de Alexei Panshin: O SciFi Tropical faz um excelente trabalho de recuperação literária, desta vez trazendo-nos um autor que está a ficar esquecido.

The Hugo Awards Undermined Themselves by Being Sponsored by Raytheon: Ok, isto não soa nada bem, estes prémios terem o patrocínio de um fabricantes de armamento.

Announcing the 2021 Hugo Award Winners: E, continuando na estranheza dos prémios Hugo, tenho de concordar com o rant do Damien Walter. Network Effects de Martha Wells como melhor romance? São livros divertidos, bons de ler, mas não tão excelentes quanto isso, e até têm algumas falhas de construção literária.

Paul Fjeld, NASA concepCapturas, a seleção semanal de leituras e artigos sobre ficção científica, cultura digital, tecnologia, moderindade e atualidade.
#futurismo #tecnologia #tech #comics #ficçãocientífica #futuro #educação #geek #bit2geekt art, 1975
: Do passado da exploração espacial.

4775) Paraibês (18.12.2021): Algumas expressões deliciosas dos dialetos do nordeste brasileiro. Maldar (maldizer), bater pino (o equivalente ao nosso dar à sola), fazer besouro (quem nunca murmurou?), entre outras. Mostra como as culturas fazem evoluir as línguas.

A língua e os seus proprietários: Este artigo acompanha muito bem o anterior. É uma crítica às posições públicas de um cronista da nossa praça, conhecido pela virulência das suas opiniões, e que recentemente saiu em defesa de um certo integralismo de pureza linguística, ao ponto de observar que o português falado nos países lusófonos é uma apropriação fraca da pureza linguística nascida no nosso território.

Logan’s Run: A look into the 23rd Century: Recordar um filme muito clássico, mistura de futurismo utópico com distopia profunda.

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70sscifiart:Astronauts with jet packs: Estamos em 2022. E eu ainda não tenho um jetpack.

Warren Ellis & Paul Duffield’s FreakAngels TV Debut 27th January 2022: Intrigante. É bom descobrir que uma experiência de edição independente de Ellis chega à animação. Vamos é ver como será recebida, dado que o argumentista britânico foi recentemente alvo da cancel culture, e praticamente banido da esfera pública.

After Dune, Denis Villeneuve Will Rendezvous With Rama: Estou a ver que Villeneuve está mesmo apostado em ser o grande nome do cinema de ficção científica da corrente geração de realizadores. Adaptar um dos clássicos de Arthur C. Clarke é prenúncio de enorme espetáculo visual.

4774) O fantástico brasileiro e a visão do Paraíso (15.12.2021): Intrigante, olhar para a pouca apetência para o fantástico na cultura brasileira como uma herança do pragmatismo dos navegadores e colonos portugueses.

Guillermo del Toro’s Pacific Rim Sequel Would’ve Been Significantly More Bonkers: O primeiro filme Pacific Rim funcionava por ser uma maluquice assumida, um festival de efeitos especiais. Nunca fez muito sentido transformar esta divertida bizarria numa franquia com sequelas e aprofundamento narrativo, mas os estúdios gostam de lucro fácil. Tendo observado isto, esta versão que acabou por não ser a da sequela parece um desvario tão grande quanto o filme original.

Tecnologia

Children as Social Robot Designers: Intrigante, este projeto que colocou nas mãos de crianças a criação de um robot social responsivo. O YOLO é um projeto de investigação entre robótica e educação, de uma investigadora portuguesa que trabalha nos Estados Unidos.

All Aboard the Metaverse: Is the New Digital Frontier Unstoppable?: O hype sobre metaversos está em alta, seguindo o clássico padrão de promessas brilhantes difícies de atingir pela tecnologias. Não é a primeira vez que os mundos virtuais vivem este ciclo de interesse.

Drone Startup to Fly Pallets Without Pilots: Um projeto europeu ambicioso, usando aeronaves autónomas para transportar carga em distâncias de médio curso.

Dell’s Concept Stanza converts your chicken scratch to digital text: A Dell promete um tablet onde o escrever com um estilete, seguindo o ritmo natural do rascunhar e rabiscar, será mais facilmente convertido para o digital. Estamos em 2021, e ainda não temos sistemas totalmente fiáveis de reconhecimento de escrita manuscrita.

A History of A.I. in Art, From Ancient Inca Data Systems to the New Battlefield of Algorithmic Bias: Esta interessante história da inteligência artificial na arte vai a um passado profundo, aos quipus incas, ao mesmo tempo um objeto estético e uma forma de armazenamento e transmissão de dados. Nos tempos recentes, a Inteligência Artificial tem-se revelado uma excecional ferramenta artística, que permite novas estéticas e questionamentos sobre a nossa relação com o mundo digital.

Kids Grok AI, But Not Its Pitfalls: Creio que quando se fala de Inteligência Artificial na educação, é mesmo isto – permitir às crianças e jovens acesso às APIs (simplificadas, em muitos casos), que lhes permitam desenvolver as suas aplicações. E, em paralelo com  a vertente tecnológica, não esquecer o lado ético.

Smartphones Are a New Tax on the Poor: Estar acessível tornou-se uma obrigação para participar nos mercados laborais, e a conectividade verdadeiramente essencial. Algo que afeta particularmente os mais desfavorecidos e frágeis.

2022: A major revolution in robotics. A world class roboticist on why everything is about to change: Não são antevisões oraculares. Pelo contrário, a observação que as tendências transformativas da robótica passam pelos domínios da visão computacional e inteligência artificial. Mas dificilmente iremos interagir com esses robots no nosso dia a dia, eles vão ser uma vertente pouco visível, de infraestrutura. Os campos que mais vão beneficiar com este tipo de robots são serviços como a gestão de armazéns, reciclagem e agricultura.

Who Killed the Robot Dog?: O cão-robot sempre foi um símbolo da robótica fofa e cativante, mas as variantes introduzidas pelos clones dos cães-robots da Boston Dynamics estão a mudar essa perceção. A ideia de robots quadrúpedes armados, ou vigilantes, estraga a imagem de simpatia inicial.

Can “Distraction-Free” Devices Change the Way We Write?: É uma daquelas ironias. Como professor de TIC que sou, tenho de suportar, demasiadas vezes para o que a minha paciência aguenta, comentários e pressões sobre o que se trabalha na disciplina. Aturo demasiadas vezes questões sobre a validade de trabalhar programação, criatividade digital, pensamento computacional e robótica, ao invés de “ensinar coisas úteis, como formatar documentos word”. A forma como estas ferramentas de texto se entranharam é impressionante, todos as consideram necessárias e fundamentais. Mas, como leitor inveterado de literatura e crítica literária, fico sempre a sorrir quando leio escritores, aqueles que vivem da escrita, a falar sobre as ferramentas digitais que usam. E são todos unânimes num aspeto: o processor de texto tradicional, com todas as suas opções, menus e escolhas, é uma treta que prejudica a fluidez do ato de escrever. É distrativo em vários níveis, mas mais fundamentalmente à forma como estimula a revisão contínua. Abundam processadores de texto alternativos, que prometem cortar distrações e foco no essencial, o ato de escrever. Dispositivos de uso específico, como computadores destinados unicamente à escrita ou tablets de tinta digital para leitura e escrita de documentos, fazem sucesso. Porquê? Porque o importante na escrita é o ordenar pensamentos, e não formatar documentos (já agora, se estiverem curiosos, escrevo estas pequenas crónicas ou no Bloco de Notas do Windows, ou com o Google Docs no tablet, texto simples, a formatação final é feita no WordPress).

The Web Is Fucked: Certeiro, e certíssimo. Para quem se recorda do espírito de liberdade e criatividade da internet nos anos 90, dessa utopia digital, a web de hoje é uma treta. A informação, partilha e intercâmbio passou a ser transmissão de conteúdos mediada por algoritmos de otimização de publicidade. O dinheiro, que que esta web de redes sociais e gigantes tecnológicos tem mostrar ser capaz de gerar em torrentes, danificou uma das maiores conquistas culturais humanas, o intercâmbio digital de informação.

Meta Offers Nothing New to the Metaverse: Anda tudo deslumbrado com promessas futuras de se fazer o que já se faz. E, no deslumbre, ninguém coloca a questão: porque é que esta tecnologia nunca se massificou, saíndo das fronteiras dos nichos maduros que a usam regularmente? A resposta é muito simples – a imersividade das realidades virtuais implica isolamento do real.

All Your Base Are Belong To Us! : Alien Computer Programs: Como será a informação digital transmitida por civilizações alienígenas? Alguns dos nossos protocolos de transmissão e interoperabilidade permitem especular sobre isto.

The work of the future: Como será o trabalho e empregabilidade no futuro próximo, sob influência da evolução rápida das tecnologias robóticas e inteligência artificial. Não é uma questão de resposta fácil.

Robotic Hand Can Crush Beer Cans, Hold Eggs Without Breaking Them: Passa-me aí a cerveja, mas, segura nela como se fosse um ovo. Uma fantástica demonstração de precisão adaptativa.

Inventing the Atari 2600: Uma história da primeira consola multi-capacidades com processador dedicado, capaz de correr diferentes jogos. Uma revolução conceptual, e o trabalho de génio dos programadores, capazes de criar técnicas que exploravam ao máximo as capacidades reduzidas da tecnologia da época.

Vacuum-Sealed Container From 1972 Moon Landing Will Finally Be Opened: Amostras colhidas na Lua e preservadas em vácuo vão ser abertas. Requer equipamentos e técnicas especiais, desenvolvidas especificamente para isto.

OpenDog Version 3 Is Ready To Go Walkies: Para quem tiver tempo, meios, capacidade e paciência, o projeto Open Dog é uma versão open source das plataformas de robots quadrúpede, que qualquer um pode construir.

A domestic newspaper warns of the Russian space program’s “rapid collapse”: Um relato nada abonatório das instituições e indústria russa ligadas ao espaço; corrupção, degradação de qualidade e falhas constantes. Torna o país um parceiro de pouca confiança na exploração espacial.

The End of the Electromechanical Era: Uma curiosa reflexão, que nos recorda que antes do nosso mundo digital, onde o software define as ações, utilizávamos intrincadas tecnologias eletromecânicas.

Autonomous Weapons Are Here, but the World Isn’t Ready for Them: Com a nossa atenção ocupada pela pandemia, mal nos apercebemos que as Nações Unidas estão a organizar uma conferência para discutir as armas autónomas. Os riscos do seu uso e proliferação são tremendos, e é de notar que as principais potências não estão interessadas em restrições ao seu uso.

Human brain cells in a dish learn to play Pong faster than an AI: Inteligência Artificial? Bem, o próximo passo é algo mais biosimulacro. Se bem que a ideia de ter células cerebrais cultivadas a processar informação levanta questões éticas.

A Quadrillion Mainframes on Your Lap: É sempre divertido fazer comparações do tipo “ah, um smartphone básico de hoje tem mais capacidade do que um supercomputador de antigamente”. Mas, como observa este artigo, esse comentário mal arranha os graus de magnitude da evolução da computação. No entanto, termina em toque ranzinza, no qual me revejo, cansado do eterno ruído das redes sociais: “The difference in just 60 years is mind boggling. But I wonder, are we using all that computation effectively to make as much difference as our forebears did after the leap from pencil and paper to the 7090?

SAGE and a glimpse of group computing from before the PC: Não é muito discutido na história da informática, talvez por ser um projeto eminentemente militar. O SAGE integrava centros de computação e radares num sistema integrado de deteção aeronáutica, que protegia todo o norte da América. Construído nos anos 50, foi inovador em muitos aspetos, para da lá da integração de sistemas, também no uso de interfaces gráficos (com canetas de luz) e, como este texto mostra, também na forma como integrou a colaboração em equipas.

Modernidade

Everything is a Remix Part 2 (2021): Porque é que tanta cultura nos parece similar, replicando, copiando modelos anteriores? Porque isso é uma forma de processar o que é novo, pegando no que já conhecemos para descrever o que não conhecemos e estamos a querer compreender.
Nos céus da II Guerra: Um texto fascinante, sobre um piloto franco-português que voou na RAF durante a II Guerra Mundial. Histórias de uma época histórica que, setenta anos depois, continua cheia de detalhes novos e surpreendentes.

Defining Propaganda And Ideology: Sempre que falamos dos perigos da desinformação digital (que são reais), esquecemos algo de elementar – o conceito de desinformação não é novo, é praticado desde que grupos de humanos começaram a querer modificar pontos de vista para garantir os seus interesses. O termo clássico é propaganda.

Is Russia about to start a new war in Ukraine?: Não é a primeira vez que leio sobre estes rumores, mas vir de uma análise do serviço de apoio informacional aos eurodeputados aprofunda a inquietação. Se o parlamento europeu está a levar a sério estes rumores, algo se está a passar na fronteira russo-ucraniana.

The Soviets turned the Volga River into a machine. Then the machine broke: Dos riscos da geoengenharia, ou como a intervenção humana em sistemas naturais gera mais problemas do que os que resolve.

Seraphim of Sarov: Patron Saint of Nuclear Weapons: Fiquemos por… há um santo patrono das armas de destruição maciça, capazes de aniquilar a vida no planeta?

From Killer Clams to Roman Emperor-Detectives, Atlas Obscura’s Year in Books: Uma lista de sugestões de leitura, sobre detalhes intrigantes da história.

The Art Historical Gems on TikTok: O TikTok como rede de descobertas com interesse cultural? Bem, na verdade, sim. No meio de tanto influencer wannabe, há criadores muito interessantes, com os quais aprendemos algo.

The Wildest Parties Of Art History: Já que neste natal, com a pandemia a recrudescer, é conveniente ser cuidadoso e evitar festejos, convívios e orgias, porque não contemplar as grandes obras de arte, que nos recordam os momentos de deboche e alegria do passado?

Do you want to install Poetry.exe?: Vírus poéticos, e outras experiências no cruzamento da poesia com media digital.

A Case For The Universality Of Western Music: Por entre os discursos culturais, tem havido alguma relativização sobre a importância dos compositores canónicos. Há uma lógica interessante nesse discurso, porque nos força a recordar que a cultura global não é exclusivamente americano-eurocêntrica. Mas há uma razão pela qual estes compositores canónicos o são: a profunda beleza da sua música, que atravessa gerações e culturas. Relativizar isso, é de uma profunda cegueira.

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Professor de TIC e coordenador PTE no AEVP onde dinamiza os projetos As TIC em 3D, LCD - Clube de Robótica; Fab@rts: o 3D nas Mãos da Educação, distinguido com prémio de mérito da Rede de Bibliotecas Escolares. Distinguido com o prémio Inclusão e Literacia Digital em 2016 (FCT/Rede TIC e Sociedade). Licenciado em ensino de Educação Visual e Tecnológica, Mestre em Informática Educacional pela Universidade Católica Portuguesa. Correntemente, frequenta pós-graduação em Programação e Robótica na Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Tutor online na Universidade Aberta. Formador especializado em introdução à modelação e impressão 3D em contextos educacionais na ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) e CFAERC. Co-criador do projeto de robótica educativa open source de baixo custo Robot Anprino. Colaborador do fablab Lab Aberto, em Torres Vedras. O seu mais recente projeto é ser um dos coordenadores do concurso 3Digital, que estimula a utilização de tecnologias 3D com alunos do ensino básico e secundário.